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Uma intrigante passagem bíblica torna-se mais complexa pela força da imagem que a emoldura: é
mais fácil o camelo passar pelo buraco da agulha do que o rico entrar
para o Reino de Deus. Entretanto, em plano secundário, essa passagem revela algo ainda mais intrigante, e
relativo à natureza humana: o possuir, no sentido de ter apego, é inerente ao homem.
Esta revelação flui, de forma indireta, de Jesus Cristo. Para entender
como, torna-se conveniente relembrar a citada passagem, ou contá-la ao
leitor que a desconhece.
Diálogo Entre Jesus Cristo e Um Homem Rico
A passagem bíblica começa em Lucas 18:18
Um homem importante aproxima-se de Jesus e pede-lhe um conselho:
– Senhor, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?
– Conheces os mandamentos – responde Jesus que, em seguida cita cinco
deles: – não cometerás adultério, não cometerás homicídio, não roubarás,
não levantarás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe.
Observa-se que Cristo deixa de citar os outros cinco mandamentos. Fica
implícito que o homem os conhece. E de fato, sua resposta demonstra isso:
– Eu sigo todos eles desde a minha juventude.
– Ainda te resta fazer uma coisa: – volta Jesus –, vende tudo que tens,
distribui aos pobres e terás um tesouro nos céus; depois vem e segue-Me.
O que temos até aqui? Um homem rico, para garantir a
vida eterna, deve cumprir os dez mandamentos e vender tudo que tem,
distribuir aos pobres e tornar-se discípulo de Cristo.
Ao ouvir a resposta o homem fica muito triste. Segundo o narrador, sua
tristeza se deve ao fato de ser muito rico.
Prosseguindo na narrativa, Jesus o observa e comenta:
– Quão difícil é para os que têm riquezas, chegar ao Reino de Deus. – E em
seguida pronuncia uma das mais intrigantes frases da Bíblia: – É mais
fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar
para o Reino de Deus.
A Discussão ao Longo dos Séculos
Essa frase causa perplexidade e tem sido fonte de
discussões ao longo dos séculos. Será o buraco da agulha e o camelo apenas
uma imagem para exprimir a impossibilidade do rico ir para os céus? Será a
agulha um espaço estreito dos currais onde ficam os animais, precedido de
outro mais largo, chamado seringa, pelos quais eles são obrigados a passar?
Será, ao contrário, uma indicação de Jesus Cristo de que somente os que
abdicam dos bens materiais conseguem a vida eterna? Será ainda que, para
ser um dos discípulos de Cristo, é necessário ser pobre?
A perplexidade que o comentário de Cristo causa, ofusca um pouco a visão
da revelação contida no restante da passagem. E essa revelação tem uma particularidade: a participação ativa dos discípulos.
Os Discípulos se Manifestam
Segue-se uma das raras manifestações dos discípulos de
Jesus, posto serem eles, quase todo o tempo, ouvintes atentos. E fazem
uma indagação estonteante:
– Então quem pode se salvar?
Isso é o mesmo que indagar: – Senhor, então ninguém se salvará? Ninguém
irá para o céu?
Estão os ouvintes dizendo, indiretamente, que todas as
pessoas na face da Terra são ricas? Não, essa dedução não é cabível, pois
a própria passagem fala em pobres, quando Cristo aconselha o homem rico a
distribuir o dinheiro entre eles. A generalização deve ter outro sentido.
O sentido pode muito bem ser o apego aos bens
materiais, pois, segundo o narrador, o homem ficou muito triste por ser
muito rico. A generalização na pergunta dos discípulos (“quem pode ser
salvo?”) sugere que o obstáculo à salvação é o “apego”, e ainda, que esse
obstáculo existe em todos os homens. É próprio do ser humano.
Então o obstáculo à salvação não se encontra na
quantidade de bens materiais, mas na atitude de apego em relação aos bens.
E essa atitude é comum a todos, desde os homens e mulheres mais ricos do
mundo até os mais pobres. Os mais ricos estão apegados à fortuna, em
todas as suas formas materiais, os mais pobres estão apegados à sandália
desfigurada pelo tempo e pelo uso, à calça desbotada e rasgada. Entre os
extremos estão os demais, apegados à bicicleta, ao carro velho, ao carro
novo, à casa, ao apartamento, ao dinheiro para viajar, educar-se e
satisfazer suas necessidades e desejos. Todos estão apegados a alguma
coisa material.
Possuir, Ter Apego ao Bem é Inerente ao Ser Humano
Mas o objetivo aqui é conhecer uma revelação a respeito da natureza
humana e não o de elucidar se alguém se salvará por ter apego aos bens
materiais. Tampouco importa questionar se a venda dos bens implica na
aquisição dos mesmos por terceiros, e se o dinheiro, ao ser distribuído,
apenas muda de mãos. E o leitor vai me dar licença para fazer a seguinte
afirmativa sobre a natureza humana: segundo Jesus Cristo, possuir, no
sentido de ter prazer com a posse, é inerente ao ser humano.
A Afirmativa Vem de Jesus Cristo ou dos Discípulos?
Existem evidências de que a afirmativa vem de Jesus
Cristo. Antes de relacioná-las, vamos ver o que se segue na passagem
bíblica.
Após a pergunta dos ouvintes Jesus diz:
– O que é impossível aos homens a Deus é possível.
O que está contido nessa informação? Jesus diz que
Deus pode salvar qualquer um que tenha esse apego, desde o mais rico ao
mais pobre. Em outras palavras, ele aquiesce com os discípulos.
Antes de apontarmos as evidências de que a afirmativa vem de Jesus Cristo,
vamos elucidar um aspecto que pode deixar o leitor confuso. Quem, de fato,
pronunciou a pergunta que contém a informação sobre a natureza humana, os
ouvintes ou os discípulos?
O narrador se refere, todas as vezes, aos “ouvintes”. Entretanto, após a
última fala de Jesus, Pedro diz:
– Quanto a nós, deixando os nossos próprios bens, nós te seguimos.
Pedro
fala no plural, fala em nome de si e dos outros, dos demais discípulos. Se
o narrador amplia a assembléia com a expressão “ouvintes”, os discípulos,
aqueles que deixaram tudo para seguir Jesus, fazem parte dessa assembléia.
Evidências de que a afirmativa sobre a natureza humana vem de Jesus
Cristo:
* A informação de que para Deus nada é impossível, exprime, no mínimo,
que Jesus concorda que todo ser humano tem esse apego.
* O conhecimento dos discípulos vem do Mestre. Isto é, Jesus lhes ensina
muitas coisas, inclusive essa característica do ser humano de se apegar a
bens materiais.
* A unanimidade dos discípulos. Segundo o narrador, os ouvintes indagam:
“Então, quem pode ser salvo?” O narrador não diz, por exemplo, que apenas
um ouvinte ou um discípulo faz a indagação, e tampouco que ela vem de uma
parte da assembléia. A pergunta vem em coro, embora não se saiba quantas
são as vozes. Tal unanimidade só pode ser fruto da crença, da convicção
que Jesus lhes infunde sobre essa característica do ser humano.
Portanto, as evidências apontam para o autor: Jesus Cristo.
Qual a importância dessa revelação? Isso tem muitos significados. Vamos
dar apenas dois exemplos:
* Campo político – Qualquer ideologia que pretenda retirar do indivíduo
essa tendência à posse está fadada ao fracasso.
* Campo religioso – Se você é cristão, eis aqui um singelo conselho: não
se sinta culpado ou errado ou condenado pelo apego que tem, pois isso é
próprio da natureza humana, e Deus te fez com essa característica.
Outubro,2004
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