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Biblia e Ciência
Resgate do Passado

Um encontro da religião com a ciência - Romance

O Número Quarenta na Bíblia

Mapa da Fazenda - cenário do romance Cristina dos Gerais

cristal quartzo

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Capítulo 1 – O Número Quarenta na Bíblia

 

A Misteriosa Luz Azul

 

O ônibus deixou a região urbana de Belo Horizonte e pegou a estrada rumo ao norte do Estado de Minas Gerais, levando a jovem Cristina. Assentada junto à janela, seus olhos estavam voltados para a paisagem, mas a mente repassava fatos de sua vida, em especial os das últimas semanas. Aquela viagem foi precedida de muitas incertezas, que a jovem julgava ter supe-rado. Mas agora, ali no ônibus, a caminho de uma região desconhecida, as dúvidas voltavam com as lembranças e despertavam algumas apreensões.

‘Tenho mesmo uma missão a cumprir ? Ou será que papai e a tia Luci tinham razão ? E se for tudo uma fantasia, um sonho, um engano meu ?... E se me acontecer algum problema ?’ – eram perguntas que ela se fazia, apesar de já ter prometido a si mesma não voltar a esses assuntos.

Entretanto ela tinha razões de sobra para pensar no passado e no futuro – alguns fatos recentes haviam mudado de forma radical a sua vida e só nos próximos dias, ou talvez meses, saberia se a mudança era definitiva ou temporária.

Cristina era uma jovem ativa e, até poucos anos antes, levava uma vida muito parecida à de muitas meninas que entram na adolescência– curtia a vida com turmas de amigos e namoricos, e estudava o suficiente apenas para passar de ano. Entretanto, no começo do segundo grau pôs em prática um plano que, acreditava, a levaria à universidade: encarar os estudos com seriedade, rever por conta própria matérias de anos anteriores e restringir o lazer aos fins de semana. O plano deu certo – logo após o segundo grau ela entrou para a universidade, onde cursava Física.

Com a mudança no modo de encarar os estudos, descobriu também o enorme prazer que o conhecimento geral lhe dava. Passou a ler assuntos muito diversos, como astronomia, química, biologia. Estudou metodologia científica e tornou-se uma ardorosa e quase intransigente defensora do conhecimento adquirido através da pesquisa. Por outro lado, conseguiu conciliar o tempo de forma maravilhosa, de sorte que tinha namorado firme e saía nos fins de semana. E foi num fim de semana, quando estava acampada, que sua vida começou a dar a guinada.

 

Era sexta-feira e, no cair da noite, o namorado e os amigos foram fazer compras. Cristina preferiu ficar sozinha no alojamento, pois uma estranha angústia rondava-lhe o espírito ; era uma sensação de sofrimento interno sem causa aparente. Decidiu ler um pouco ; talvez a leitura de algo leve lhe devolvesse o sossego, mas isso não deu resultado. Pôs-se a pensar e recordou- se de sensação parecida na tarde de um domingo distante, quando tinha no máximo sete anos. Naquela ocasião ela havia se indagado com quem e de que ia brincar. A pergunta soou estranha, posto que todo o seu tempo era, de modo natural, ocupado por brincadeiras com as amiguinhas. Paralelamente uma aguda sensação, entendida em épocas posteriores como sendo de angústia, percorreu-lhe o corpo. Foi uma sensação rápida, mas marcante, tão marcante que jamais a esquecera. Deitada ali no alojamento, ela comparou as duas. A primeira foi intensa e rápida, e a que sentia agora era leve, porém per-sistente. Ambas inexplicáveis. Deixou de lado esses pensamentos, apagou a luz, tentou relaxar e dormir um pouco ; podia estar apenas cansada. Conseguiu não mais do que alguns cochilos, ainda assim, com sobressaltos.

A certa altura o aposento foi invadido por luzes misteriosas – uma era azul e pairava no ar a pouco mais de um metro de seu rosto, e as outras, brancas, deslizavam em diversas direções em torno da luz azul. Cristina pensou que fosse uma brincadeira qualquer dos amigos, mas logo percebeu que isso seria impossível. Aí ficou assustada.

 

“Fique tranqüila” – ouviu ela. A voz, feminina, emanava do lugar no espaço onde se situava a fonte de luz azul. Percebeu, em seguida, que essa fonte se ampliara, envolvendo todo o seu corpo. “Estamos aqui para dizer-lhe que você faz parte da cadeia de missões especiais – continuou a mesma voz. Todas as pessoas têm uma missão a cumprir. Poucas têm algo de especial a fazer. Você é uma dessas poucas.”

 

 

O susto deu lugar à perplexidade. Ela não sabia o que dizer. Pensou que estava sonhando, que logo ia acordar e tudo ficaria bem. Entretanto, uma parte sua, mais profunda, mais sentida do que pensada, alertou-a para a Possibilidade de aquilo estar acontecendo de fato. Imaginou, em seguida, que podia estar naquele estágio intermediário, nem dormindo nem acordada, e no qual é impossível ir para um estado ou para o outro pela vontade. Esforçou-se para acordar, mas não conseguiu. Fez uma tentativa de mexer com o corpo e viu que estava acima do leito, levitando. Ocorreu-lhe que tinha como alternativa deixar o sono aprofundar-se, mas essa entrega também não deu resultado. Teve ímpetos de alarmar-se, mas ponderações de que nada daquilo seria verdadeiro, acalmaram-na, pelo menos em parte, mas acalmaram. E lá no fundo do seu ser, a notícia de ter uma missão a desempenhar fermentava um medo. As luzes permaneciam lá, como que esperando suas conclusões. Ficou um tempo oscilando entre essas hipóteses sem se decidir. Quando viu que conseguia falar, perguntou:

“O que está acontecendo? Que missão é essa?”

“Você ainda não está preparada para entender este encontro. Quanto à missão, você saberá através de instruções que lhe serão passadas” – foi o que ouviu.

A notícia de que a missão seria informada depois voltou a acalmá-la. Se fosse verdade ela ia ter tempo para pensar no que fazer. Se fosse sonho, ficaria completamente aliviada quando acordasse. Mas a simples consideração de que aquilo podia ser verdade reacendeu o medo – afinal, missão implicaria em um-dança, em deixar sua vidinha tão boa, em encarar o desconhecido. Não cus-tava pedir mais informações. Movida pela expectativa de tudo se esclarecer e ela voltar ao seu normal, retornou:

“De que modo vou saber?”

“Através do seu pensamento. Se for necessário, nós voltaremos.”

Tomar conhecimento de uma missão através do pensamento era algo muito esquisito e, a princípio, sem propósito. Pensar isto acalmou-a, pois reforçava a hipótese de que não era verdade o que se passava. Mas ela era uma moça curiosa e aquilo precisava ser esclarecido. Insistiu:

“Do pensamento? Como vou saber que um pensamento é uma instrução e não um simples pensamento meu?”

“ Você saberá. Entretanto, você as seguirá se quiser. Se a sua de-cisão for a de segui-las, serão revelados sete sinais através de você.”

Esta informação trouxe de novo a inquietação. Entrar no campo de revelações e de sinais? E ainda sete? Ao considerar especificamente este número, o medo voltou. Quando se lembrou que lhe estava sendo dado alternativa – seguiria as instruções se quisesse – tornou a se acalmar. Mas aquela história de sinais aguçou sua curiosidade e ela retornou, apesar do sobe e desce de emoções que aquilo estava causando:

“Que sinais?...”

“Para tudo há o momento próprio. Eles dizem respeito à evolução e ao futuro do ser humano.”

Esta notícia deixou-a relaxada, ou quase totalmente relaxada. Afinal, se se tratava de conhecer a evolução e o futuro do ser humano ela não precisaria mudar sua vida. Por outro lado, o tema evolução e futuro era estimu lante, ela não podia negar, ainda que estivesse sonhando ou pensando naquele está- gio intermediário. Achou que devia deixar bem claro a opção que lhe era dada :

“E se eu não aceitar a missão?”

“Outro ser humano o fará.”

Depois disso as luzes desapareceram e Cristina ficou ali, deitada, sem-tindo o corpo em contato com o leito, plenamente acordada. As dúvidas continuaram. Passados dois minutos, ou três no máximo, ela se viu surpre-endentemente calma, sem medos. Acendeu a luz e levantou-se. Com os olhos percorreu o aposento – tudo estava em ordem. Pensativa, foi até o lado de fora – no pequeno bosque ali perto, estava tudo quieto. De volta ao aposento, deitou-se de novo. Ela tinha quase certeza que não dormira, em-bora o que tinha acontecido parecesse um sonho. Podia ser apenas uma imaginação, pura imaginação que teve naquele estágio intermediário entre o sono e a vigília, coisa que já lhe ocorrera algumas vezes antes. Entretanto ela estava muito impressionada com aquelas coisas, principalmente com a parte que dizia que ela tinha uma missão especial a cumprir. E ademais, aquela sensação de angústia havia desaparecido por completo, como por encanto.

Quando o namorado João e os amigos chegaram, a quietude do ambiente foi quebrada pela algazarra. Cristina foi estar com eles. Passado algum tem-po e tendo o barulho diminuído um pouco, ela chamou todos para perto de si e começou a relatar-lhes o que ocorrera. Um dos jovens interrompeu-a:

– Isso é brincadeira sua não é?

Foi seguido pelos outros:

– Vai ver que você teve um pesadelo.

– Ou um sonho.

– Será que você está vendo coisas?

– A voz era cavernosa e vinha dos confins da Terra ? – esta pergunta ar-rancou risos dos demais.

– Esqueçam – disse Cristina interrompendo a narrativa. – Não está mais aqui quem contou essas coisas.

É compreensível que ela tenha ficado aborrecida; além de ouvir comentários desdenhosos, não falou do assunto tanto quanto precisava.

João e uma das amigas chamaram-na para fora e pediram-lhe que con-tasse o que ocorrera. Apesar da receptividade dos dois, Cristina achou melhor omitir a parte relativa à revelação dos sete sinais e sobre a evolução e o futuro do ser humano. Vão achar que fiquei maluca – pensava. E talvez eu esteja mesmo...’ Deixou de falar também que a voz que ouvira era feminina.

Naquela noite, no acampamento, a jovem não pregou os olhos. Ela conti-nuava impressionada com o episódio. A voz da misteriosa luz azul passava e repassava em sua mente como um eco distante. No sábado e no domingo ficou pensativa, taciturna. Nem mesmo a companhia de João, sempre afável e com-preensivo, devolveu sua habitual alegria. Sentiu falta de Clara, a amiga íntima que não pôde ir acampar com eles e com quem poderia falar de modo mais livre. Teve a impressão de que o inesperado, aquela coisa que vem e muda tudo, podia estar chegando para ela. Aquela coisa que a gente pensa que só acontece com os outros, como se a nossa vida fosse imune às incertezas e ao impre-visível, podia estar batendo à sua porta. A hipótese de uma mudança brusca de vida, ainda que remota, gerou na jovem periódicas ondas de medo.

 

Conflito na Família

 

E nquanto o ônibus continuava a viagem, as lembranças se sucediam – o período posterior àquele fim de semana foi dramático. Passou dez dias em indagações contínuas sobre o episódio no alojamento. ‘ Missão especial... pen-sava, determinada ? Vou saber coisas sobre o ser humano ? Sete sinais ?... Estou ficando louca ? O que estou pensando agora é uma instrução ou uma vontade minha ?’ Clara foi, nesse período, a amiga de sempre e o estuário de suas indagações ; mas mesmo para ela Cristina omitiu a parte relativa aos sete sinais. Deixou de falar-lhe também que a voz que emanava do centro de luz era feminina.

Embora resistisse à idéia, foi inevitável pensar que algo sobrenatural lhe tivesse acontecido. Pensou até que fosse uma daquelas coisas de es-píritos do além, das quais sempre desconfiara. Em todos os filmes que vira, ou rela-tos que lera, as vozes do além eram sempre masculinas. Nunca havia uma que fosse feminina. Isso aumentava suas desconfianças e parecia, para ela, asse-melhar-se com a posição secundária que as mulheres ocupam na história e nos ritos de quase todas as religiões do mundo. Entretanto, a voz que ouvira no alojamento era feminina e não tinha nada de caver - nosa. Ao contrário, era clara, limpa, direta, vinda dali, de um metro de distância.

Esse detalhe a confundia – podia ser tanto a negação como a confirmação de um contato sobrenatural. Além da tortura causada por essas dúvidas, ela tinha de enfrentar ainda a sua própria censura – estaria cometendo um erro ao afastar-se do pensamento lógico, metódico, objetivo da ciência e deixar-se levar por coisas subjetivas e até irracionais. Tudo isso mantinha seus pensamentos a mil.

No meio desse turbilhão uma ordem alojou-se em sua mente:

“Vá para o campo, para os gerais.”

Esse pensamento, que durou cerca de quarenta horas, levou Cristina a deixar de lado os estudos e uma certamente brilhante carreira no futuro. Foi um pensamento constante, desses que ficam martelando sem cessar. Por ser estranho à jovem, ela elaborava outras instruções mentalmente, para substi-tuí-lo, rebatê-lo, mas era inútil : lá vinha o pensamento “Vá para o campo, para os gerais ”.

Durante esse tempo ela não dormiu e nem se alimentou. Exausta com esses exercícios mentais, desabafou em silêncio : ‘E a minha liberdade de escolha, onde está? Estou sendo pressionada a aceitar essa droga de missão ! Eu nem sei o que é “ gerais ”!’

A partir desse desabafo fez-se completo silêncio em sua mente. Foi como a calmaria que chega após uma tempestade. Essa mudança convenceu-a de que estava diante de uma instrução superior ou de algo que vinha do fundo de sua alma. E uma coisa assim não podia ser ignorada. Essa consideração, aliada a um anseio muito bem escondido dentro de si, de viver uma aven-tura, levaram-na a decidir-se pelo atendimento àquela ordem. Se o seu esta-do naquele período foi preocupante para a família, a decisão foi motivo de pânico.

– O que você vai fazer nos gerais, se nós viemos de Bocaiúva, e lá tem gerais, só por causa de você?! – perguntou o pai aturdido.

– Tenho uma missão a cumprir lá.

– Missão?! Que missão?... Que coisa boba é essa? – insistiu ele.

A jovem fez um relato do que se pass ara desde aquela sexta-feira (guar-dando os segredos citados) até a sua tomada de decisão. E disse ainda que eles eram, juntamente com Clara, os primeiros a saber, em detalhe, o que ocorrera com ela até aquele dia.

– Isso é loucura, minha filha!... – voltou o pai. – Você não pode estar no seu juízo perfeito. Os gerais são quase um deserto! O que uma moça como você vai fazer lá?

Então é quase um deserto...’ pensou.

Esta foi a primeira informação que recebeu sobre os gerais e que a fez ficar imaginando como seria por lá. Vendo-a pensativa, o pai achou que ela estava mudando de idéia.

– E então, você vai deixar isso pra lá?

– Não quero te magoar, entende? mas ainda que fosse o próprio deserto eu iria.

– Você vai ficar muito tempo lá ? – indagou a mãe aflita pois, conhe-cendo bem a filha, sabia que a decisão era definitiva.

– Não sei mãe, não sei...

A discussão prosseguiu. O tom era ditado pela aflição da mãe, firmeza da filha e inconformismo do pai. E era compreensível a reação dele, especial-mente porque Cristina era filha única.

– Não dá pra aceitar uma coisa dessa – disse ele. – Viemos pra Belo Hori-zonte pra você ter todas as oportunidades de estudar, ter um bom futuro, você era apenas uma menininha... e agora você fala em ir pro interior e ainda por cima, pros gerais ?! – depois de dizer isso ele se afastou visível-mente aborrecido.

 

No dia seguinte, voltaram a conversar na hora do café da manhã. Lá estava também Luci, tia pelo lado paterno, que não tinha filhos, nem se casara, e que nutria por Cristina sentimentos maternais, embora possessivos.

– Minha filha – começou o pai em tom mais receptivo –, acho que nem precisa dizer que eu e sua mãe não dormimos esta noite. Continuamos espe-rando que você desista dessa idéia maluca.

– Fiquei sabendo do caso agora de manhã. Não acreditei. É verdade mês-mo? – antecipou-se a tia.

– Quero – começou Cristina – que vocês não se preocupem. Eu também pensei muito esta noite, entende? Vi que estava esperando o impossível : vocês me compreenderem. Mas não vamos brigar por causa disso... – con-cluiu em tom de súplica.

– Passei a noite engasgado com uma pergunta – retornou o pai. – Você está querendo ir atrás da sua mãe verdadeira? – referia-se à condição de filha adotiva.

– De maneira alguma!... – respondeu a jovem com certa aspereza, para em seguida voltar ao seu tom normal. – Minha mãe verdadeira é a que me criou.

– E você sabe o quanto eu te amo – comentou a mãe.

– É, mas eu acho que você perdeu o juízo – voltou a tia.

– Até você, tia? Eu não estou louca. Sei muito bem o que estou fazendo.

– Como você sabe o que está fazendo – reagiu o pai –, se diz que nem sabe direito o que vai fazer lá?

– E essa história de missão ? Isso é coisa de pessoa perturbada – acres-centou a tia.

– Vocês podem pensar o que quiserem. Eu vou de qualquer jeito.

– E deixar a gente aqui, assim?! – retornou a tia, com voz de choro.

– Eu tenho direito de ter a minha vida e escolher o que fazer com ela – respondeu com firmeza. – Ou vocês pensam que eu só devo fazer o que vocês querem?

– Isso é outra coisa – voltou o pai, com rispidez. – Estamos falando de uma decisão maluca...

– Ficamos assim : vocês dois acham que eu fiquei louca e eu acho que es- tou no meu juízo perfeito. Eu vou e o tempo vai dizer de que lado está a razão.

Estava claro que a separação era muito dolorosa para aquela pequena família. O secular problema do anseio de liberdade dos filhos para terem suas próprias vidas chocando-se com a necessidade dos pais de dar proteção, era o núcleo do desentendimento e da dor.

– Não vamos deixar um assunto tão sério entregue ao tempo – voltou o pai. – Eu acho que você deve se submeter a um exame, um exame psiquiá-trico... Missão... que coisa mais doida...

– Exame psiquiátrico?... Eu não preciso de exame algum.

– Você deve fazer o exame, pro seu bem – interveio a tia, chorando.

– Eu quero que você faça o exame – de novo o pai.

– Não sou obrigada e nem vou fazer.

– Obrigada você não é – retornou a tia, em lágrimas e com certa ir-ritação na voz. – Mas se não quer fazer, é porque você mesma duvida...

– Ainda que eu tivesse dúvidas, não seria obrigada. Não estou contra-riando a lei e nem fazendo mal a ninguém, entende?

– Mas nós não podemos ficar aqui, passivamente, esperando que o tem-po diga se você está com alguma perturbação ou não – argumentou o pai.

– E a gente... sofrendo aqui... esperando... – acrescentou a tia.

Cristina estava acostumada a lidar com situações semelhantes na família – de um lado, o pai com suas atitudes firmes; e de outro, a tia fazendo jogo emocional. Entretanto, sentia-se um pouco abalada todas as vezes que, mesmo sem razão, a tia a culpava por um sofrimento qualquer, como naquelas circunstâncias. Em algumas ela cedia. Em outras não – era o caso em pauta.

– Vou sair e só volto na hora do jantar – disse ela cortando a discussão.

Após aquele desentendimento a jovem ficou mais convicta de que tinha mesmo de guardar segredo sobre as revelações.

 

Na Faculdade ela preencheu os formulários em que suspendia a matrícula por tempo indeterminado. Encontrou-se com colegas e amigos e disse-lhes que ia fazer uma viagem, sem entrar em detalhes. Almoçou com o namorado João e a amiga Clara, com os quais comentou a pressão que estava sofrendo em casa.

– Sei que eles vão continuar contra. Isto é tão ruim... Queria tanto que eles entendessem...

– É sempre assim – confortou Clara –, quase todos os pais são iguais. Eles acham que sabem o que é melhor pra gente.

– Você deve ser compreensiva com eles – sugeriu João. – Eles só têm você e deve ser difícil aceitar você sair assim. E ainda tem a Luci... Estão com medo da separação...

– Eu pensei exatamente isso. Preciso ter muita paciência pra levar essa situação. Agora, aqui pra nós : eu estou decidida a ir, mas lá no fundo, bem no fundo, estou com um pouquinho de medo, entende? É uma coisa esqui-sita mesmo, sair assim... deixando tudo...

– Se você demorar muito lá, eu vou te buscar – disse João em tom de brincadeira.

À tarde, Cristina foi à empresa para a qual fazia trabalhos sob encomenda. Disse ao gerente que nos próximos dias entregaria o serviço que estava fazendo e pediu para que fosse excluída da escala de futuras encomendas, por motivo de viagem.

– Já estou sabendo – disse ele. – A Luci me telefonou. Na verdade ela até me pediu para te convencer a desistir, mas falei que eu não tinha direito de fazer isso.

‘A tia está jogando pesado... pensou. Está mexendo com os pauzinhos.’

No final da tarde voltou a encontrar-se com Clara, quando falaram sobre as suspeitas do pai e da tia. Admitiu que ela mesma já havia se indagado sobre sua sanidade mental.

– Louca você não está – repondeu a amiga. – Quando a gente pensa uma coisa diferente, ou pensa em fazer coisa diferente e que espanta os outros, a gente fica balançada mesmo. Lembra daquela vez que eu queria jogar tudo pro alto, sumir? Eu pensei que estava ficando doida... – Abriu os braços e concluiu zombando: - E olha eu aqui!

‘Será que ela ia pensar a mesma coisa se eu dissesse tudo ? Sobre a reve-lação dos sete sinais ?’ Apesar desta dúvida, Cristina sentiu-se melhor com os comentários da amiga.

 

O Número Quarenta na Bíblia

 

Ao chegar em casa para o jantar, a jovem encontrou os três e mais um tio e um amigo da família. Percebeu que a aguardavam para uma reunião formal.

– Estivemos conversando – começou o pai voltado para a moça – e achamos que o assunto da sua viagem deve ser melhor estudado.

– Melhor estudado?! Estou pronta a conversar, entende? desde que não venham com essa coisa de que estou doida.

O tio ponderou que seria bom ela ouvir mais alguém. Afinal, era um assunto muito sério, uma decisão que poderia ter reflexos no resto de sua vida. O pai admitiu que se excedera, por causa da emoção, ao dizer que ela estava perturbada, louca, mas continuava achando que a opinião de um psiquiatra era necessária. – Afinal, psiquiatra lida com pessoas normai s também... – disse ele para reforçar. A tia, que era beata, sugeriu que ela ainda fosse falar com o pároco, conhecido de toda a família.

Assentada, a jovem apoiou a testa nas palmas das mãos e os cotovelos nos joelhos, em postura pensativa, enquanto eles aguardavam, em intensa expectativa, a sua resposta. ‘Querem que toda a cidade opine... É revoltante! Mas tenho de manter a calma. Quanto mais eu entestar, mais complicado vai ficar.’ Naquele momento veio-lhe à mente algo que ela havia lido, mas não se lembrava onde, e que dizia que em situações como aquela o melhor era não entrar na disputa, posto que isso levava a uma perda da autoridade e à derrota. Em contrapartida, era conveniente perseverar, apenas perseverar nos propósitos. ‘É melhor eu me submeter agora, e viajar depois, com os espíritos acalmados. Ao mesmo tempo, vou tomando as providências. Ele é jovem – ela agora pensava sobre o pároco –, poderá me compreender, e até ajudar a resolver esta pendência...’ Cristina aceitou a sugestão da tia e o ambiente desanuviou um pouco.

O pároco, um padre católico, recebeu-a de modo informal e gentil, no dia subseqüente. Enquanto expunha seu caso, Cristina ouviu algumas perguntas que lhe deram a nítida impressão de que o assunto não era novidade para ele. ‘A tia Luci deve ter feito a cabeça dele’ – pensou.

Era conhecida a habilidade da tia para manobrar as pessoas, a partir da rede de influência que construíra. Essa rede tinha duas bases: a igreja e o trabalho. Na igreja participava de inúmeras atividades e mantinha contato com muita gente. No trabalho ocupava uma importante função pública que ela usava com maestria para estabelecer vínculos, em que as pessoas ficavam devendo-lhe favores. Recebia para jantar, em casa, pessoas tanto de um grupo como de outro, inclusive o pároco de então e outros que o antecederam.

– E você está decidida a ir em frente... – comentou o padre quando ela terminou o relato.

– Estou. Seja uma verdade, um sonho ou uma fantasia, eu preciso passar tudo a limpo, entende?

– Acho que entendo. Nada é mais gratificante do que realizar um sonho O meu sonho era ter uma paróquia como esta e eu me sinto muito feliz no meu trabalho. Deus guia os meus passos e guiará os seus também.

– Então você acha que é um sonho, uma aspiração minha? Acha que não foi uma visão, uma coisa real?

– A Igreja é cautelosa com respeito a aparições. E acho que sua família tem uma certa razão de estar apreensiva: você não tem nem um sonho muito bem definido...

– Isso é verdade, mas eu preciso ir assim mesmo.

A moça saiu um pouco decepcionada daquele encontro, o qual trouxe-lhe, de quebra, a lembrança dos problemas que teve com a religião. Quando menina ela era atenta e inquiridora. Numa aula de catecismo, preparando-se para fazer a primeira comunhão, indagou do professor:

– O que Nossa Senhora, mãe do menino Jesus, falou de bonito?

– Falou de bonito?... – respondeu ele, assustado.

– É, de bonito. Só escuto falar de coisas bonitas que os homens falaram.

A menina ouviu uma reprimenda e um pequeno sermão, dos quais só ficaram gravadas as últimas palavras – ...você só tem de guardar as coisas que estão escritas.Mas ela não seguiu o conselho.

Na pré-adolescência e início da adolescência, pareceu-lhe que os poucos papéis relevantes das mulheres na história da religião eram quase que apenas de santa, de prostituta ou de traidora. A maioria, a imensa maioria, estava relegada a um segundo plano e a uma total submissão aos homens. Indagou-se por que um dos dez mandamentos recomendava ao homem não cobiçar a mulher do próximo e não fazia referência à cobiça da mulher pelo homem da outra. Por achar que havia em tudo isso um misto de injustiça e preconceito, sua fé ficou abalada.

Entretanto, a gota d’ água que a levaria a afastar-se da religião foi uma recomendação do Apóstolo São Paulo para que, na igreja, as mulheres cobrissem a cabeça e permanecessem caladas – se quisessem saber alguma coisa, que perguntassem aos seus maridos em casa. A justificativa que o apóstolo dava era de que a palavra de Deus não viera através da mulher.

Cristina era uma jovem de temperamento mais para terno, o qual, naturalmente, não a impedia de sentir raiva ou indignar-se, como naquelas circunstâncias. Esse temperamento, associado a uma atitude reflexiva, que também lhe era própria, levou-a a rever suas posições. Isso aconteceu quase por acaso. Ela tinha ido à igreja para cumprir um compromisso social.

Na homilia o padre falou sobre questões históricas da religião, destacan-do dois aspectos. O primeiro foi a forma de transmissão dos ensinamentos nos primórdios, em particular os do Antigo Testamento – durante muitas ge-rações eles foram passados exclusivamente por via oral, de pai para filho, de sacerdote para fiéis. Isso, naturalmente, levou a distorções. O segundo foi a organização social que prevaleceu durante muitos séculos, baseada na família patriarcal. Era compreensível que nos relatos sobressaísse a figura masculina.

O padre usou a imagem de uma neblina, depois da qual surge uma pai-sagem iluminada pelo sol. Se se olha através da neblina, fica tudo emba-çado, ofuscado, distorcido. Quando se olha depois da neblina, a natureza aparece em todo o seu esplendor. A neblina seria esses acréscimos, rela-tivos aos costumes e padrões sociais dos diversos povos através dos séculos. Era preciso enxergar além da neblina, onde estava a essência, a verdadeira mensagem em toda a sua exuberância. Naquele momento Cristina teve a impressão de que tudo aquilo se aplicava direitinho aos problemas que ela vinha tendo com a religião.

Profundamente tocada, começou a prestar mais atenção nas mensagens dos textos bíblicos e, ao mesmo tempo, a rever suas posições. Viu, ainda, que tudo aquilo se aplicava não só à religião católica, mas a quase todas as outras, posto que passaram por processo semelhante. Em qualquer uma era preciso ver além da neblina. Desse modo, as religiões não seriam machistas, como chegou a pensar no princípio, mas sim as culturas que lhes serviram de berço. No máximo, elas, as religiões, poderiam contribuir para prolongar o status quo, não pelas doutrinas, mas pela incapacidade dos seguidores, e até de muitos líderes religiosos, de muitos pregadores, de separá-las dessas quês-tões históricas. A jovem se reaproximou da igreja, apesar de persistirem alguns pontos ainda obscuros.

Na reunião da noite, Cristina percebeu que o pai e a tia estavam com os semblantes mais desanuviados. A tia parecia dizer-lhe com os olhos : Não falei? Você precisa pensar mais nessas coisas... O pai antecipou-se dizendo que, na opinião do padre, a decisão que ela havia tomado era sem lógica.

– Sem lógica ? – indagou Cristina, irritada. – E eu estou atrás de lógica ? Lógica é a minha vida toda ! As coisas acontecendo na hora certa, no mo-mento certo. Sei como ela vai ser daqui um, cinco, dez anos ! Se eu já acha-va minha vida certinha demais, programada demais, agora que eu tenho mo- tivos pra tentar uma coisa nova, vou preocupar com lógica ?... De jeito nenhum !

Após essa explosão emocional, o tempo fechou outra vez. Agora, além do pai e da tia, também o tio estava contra ela. A mãe e o amigo da família prati-camente só ouviam. E foi através deste último que o impasse começou a se desfazer : a jovem se avistaria com um pastor protestante.

De início essa sugestão pareceu-lhe um tanto fora de propósito porque todo o seu núcleo familiar era católico. O amigo argumentou que o tal pastor era uma pessoa muito culta, estudiosa e estimada pelas pessoas que freqüen -tavam sua igreja. A idéia, apesar de extravagante, começou a ser assimilada por ela e pelos outros também. Era uma saída para o impasse daquele mo-mento, que incomodava os dois lados.

O encontro com o pastor protestante, batista, foi longo, estimulante e até surpreendente para a jovem. Ele era um homem de meia-idade, de aparência tranqüila e que, desde logo, manifestou sincero interesse pelo caso. Depois do relato, eles conversaram sobre diversos assuntos; detiveram-se mais nos mistérios da criação e do Universo.

– Qual vem a ser seu entendimento de “mistérios”? – indagou Cristina.

– Mistério, num sentido restrito, pode ser algum sinal sobre os planos de Deus.

– Espero que você não pense que sou pretensiosa, mas venho consi-derando essas coisas como mistérios, entende? Não nesse sentido divino, é ló-gico, mas como, no mínimo, uma grande coincidência.

– Explica melhor.

– Veja o tempo que fiquei me indagando sobre a instrução de ir pros gerais : durou quarenta horas, entende? E então me lembrei que o número quarenta aparece algumas vezes na Bíblia. Não tem uma parte que diz que o povo judeu foi condenado a vagar quarenta anos no deserto ? – O pastor confirmou. – Jesus Cristo não jejuou quarenta dias e quarenta noites no de-serto antes de ser tentado pelo demônio ? – Nova confirmação do pastor. – Tenho certeza de que existem outras passagens com o número 40 na Bíblia, tem o dilúvio... não parei para pesquisar o assunto não. Por favor, não tome isto como blasfêmia, mas apenas como um exercício da minha imaginação, entende?

– De maneira alguma – retrucou o pastor com ênfase e aprumando o corpo –, não considero isto uma blasfêmia; estamos apenas conversando de uma maneira aberta e sincera. – Após ligeira pausa ele disse: – Você tem razão. E eu sei quais são essas passagens; não estou certo também, de me lembrar de todas, mas vamos lá:

“No caso do castigo ao povo judeu, foi a uma parte ; foi para aqueles que se recusaram a lutar pela posse da Terra Prometida – começou ele, tocando o indicador da mão direita no dedo mínimo da mão esquerda aberta, como se estivesse iniciando uma contagem. – Cada ano no deserto era correspon-dente a um dia que os seus representantes ficaram em Canaã, espionando o aspecto do país e o povo que lá vivia. Ficaram quarenta dias lá e, portanto, foram condenados a vagar quarenta anos no deserto – agora ele tocava o anular.

“Moisés passou quarenta dias e quarenta noites no monte Sinai, sem comer pão e sem beber água, antes de receber as tábuas da Lei. – Agora ele tocava em seqüência o dedo médio e o indicador, como se prosseguisse a contagem.– Depois, vendo que seu povo caíra em pecado, quebrou as pe-dras onde Deus escrevera as Leis.

“Moisés voltou ao monte e passou mais quarenta dias e quarenta noites sem comer e sem beber.

“Moisés viveu cento e vinte anos, os quais foram divididos em três partes de quarenta anos cada.

O pastor prosseguia, tocando os dedos da mão esquerda como se conti-nuasse uma contagem, embora já descompassado com a quantidade de vezes que citara o número quarenta.

“Aarão, colaborador de Moisés, morreu quando se passaram quarenta anos desde a saída do povo do Egito.

– É incrível! – comentou a jovem.

O pastor deu um discreto sorriso de assentimento e retomou:

“No deserto, durante a condução do povo, Moisés estabeleceu as bases de uma doutrina que ia desde os dez mandamentos até detalhes da construção do tabernáculo, o templo que era levado de lugar em lugar. Erguido em forma de tenda facilmente desmontável e transportável, tinha, entre as especificações, vinte pranchas de madeira de um lado e vinte de outro, qua-ren-ta pranchas portanto e que eram colocadas verticalmente. Cada prancha tinha dois su-portes de prata ; logo, eram qua-ren-ta – enfatizou de novo – suportes de um lado e qua-ren-ta de outro. Está vendo o tanto que aparece o número quarenta?

– Estou. É muito interessante... Mas eu estou interessada no número quarenta vinculado a tempo apenas, entende? A objetos, não.

– Ah... certo! Mas veja que o número aparece muitas vezes ligado, direta e indiretamente, a Moisés. Continuando então:

“Isaac, filho de Abraão, tinha quarenta anos quando se casou com Rebeca.

“Quando Israel morreu, Jacob, filho de Isaac, passou a se chamar Israel, depois de lutar com um ser celeste, sabia? – Cristina balançou a cabeça. – Pois foi assim. Mas quando ele morreu, os médicos gastaram quarenta dias para embalsamar o seu corpo.

“Os filhos de Israel, povos chamados israelitas, alimentaram-se de maná durante quarenta anos até chegar à Terra Prometida.

– É mesmo incrível! – voltou a exclamar Cristina. – Isso dá o que pensar... Já até perdi a conta.

– Mas não acabou ainda não – continuou repassando os dedos na conta-gem imaginária. – O Antigo Testamento registra também, como você falou:

“No dilúvio choveu durante quarenta dias e quarenta noites.

– E ainda:

“Jonas, após ser expelido do ventre de um peixe, onde ficara três dias, anunciou a destruição da cidade de Nínive num prazo de quarenta dias. Destruí-ção que não aconteceu, pela misericórdia de Deus, ante o arrependimento dos seus habitantes.

“Elias, depois de fazer duas refeições, empreendeu uma viagem de quarenta dias e quarenta noites.

Após uma breve pausa, e ante o pasmo da jovem, o pastor voltou a narrar.

“O Novo Testamento registra, além dos quarentas dias que Jesus jejuou no deserto, como você falou, um segundo fato: após a ressurreição, e antes de ascender ao céu, Ele foi visto pelos discípulos durante quarenta dias.”

– Portanto, há muitas passagens com o número 40 – concluiu.

– Puxa vida!... Tem muito mais coisa do que eu pensava! Não pode ser acaso. Deve ser um mistério. Que sinal está contido nele? Você sabe?

– Não sei. Na Bíblia há uma passagem que diz que os mistérios serão revelados em época própria e de acordo com as possibilidades de compre-ensão do homem. Mas quero te falar que eu também já tinha pensado muito nesse mistério do número 40 e até pedi a Deus, em oração, que me revelas-se Seu plano.

– E o que aconteceu?

– Não obtive resposta. Ainda não chegou o tempo dessa revelação, ou não sou merecedor dessa atenção de Deus.

A jovem saiu confortada; aquele pastor já tivera pensamentos parecidos com os seus. Achou que ambos tentavam enxergar além da neblina. Isso indicava que ela podia confiar no que vinha pensando. E as coisas pareciam ter nexo. { Leia O Número Quarenta na Astronomia }

Na reunião da noite, percebeu que o semblante da tia estava fechado. Sinal de que as coisas, ditas pelo pastor, eram diferentes das do padre.

– O pastor acha que a viagem poderá te fazer bem – disse o pai.

– Mas tem a opinião do padre – interveio a tia com firmeza.

Cristina teve um momento de reflexão. Coitada... eu simplesmente podia arrumar as malas e dizer “Até logo! Estou indo...” mas eu sei que não ficaria bem comigo mesma se os deixasse pra trás, aborrecidos. Preciso ter paciência...

O pai voltou a falar no exame com psiquiatra.

A discussão prosseguiu num clima mais ameno e a jovem acabou concor-dando em ter uma entrevista. Esta decisão, ao invés de indicar que ela esti-vesse amolecendo, revelava justamente o contrário : ela sentia-se fortaleci-da, principalmente depois da conversa com o pastor, e nada tinha a temer. Não custava, realmente, submeter-se a mais essa exigência.

 

Cristina relatou os últimos acontecimentos para a amiga Clara, como sem-pre fazia. Nessa ocasião o seu ânimo estava muito elevado. Aquilo que, de início, parecera-lhe um abuso – ter de ouvir opiniões de terceiros – tornara- se uma fonte de estímulo. Durante a conversa surgiu a idéia de encontrar-se com alguém ligado ao espiritismo.

Afinal, ela havia falado com um padre e um pastor protestante. O que uma terceira doutrina teria a dizer sobre aqueles acontecimentos?

As duas fizeram contatos com amigos e conhecidos e obtiveram indicação de uma mulher, que diziam ser dotada de poderes mediúnicos. Houve uma dificuldade inicial para marcar o encontro porque ela era muito procurada para consultas espirituais. Um homem espírita, amigo da família de Clara, interce-deu e reduziu a espera que prenunciava ser de vários dias.

Ao chegar ao local, Cristina viu-se num ambiente místico. Quase tudo era de cor branca. As pessoas não se falavam e pareciam entender-se. Uma música suave e desconhecida, saída de um lugar não identificável, parecia um convite ao relaxamento. Num conjunto de cadeiras estavam sentadas pessoas vestidas de branco, silenciosas e que pareciam concentradas em si mesmas.

– Elas fazem uma corrente espiritual – sussurrou-lhe o amigo da família de Clara.

A moça sentiu-se envolvida pelo ambiente. Uma sensação desconhecida, porém deliciosa, mistura de enlevo e aconchego, foi tomando conta dela aos poucos. Quando fechou os olhos e começou a sentir que estava flutuando, uma pessoa bateu levemente com a ponta do dedo indicador em seu ombro direito. Ao levantar a cabeça, a primeira impressão que teve foi de ter dormido e sonhado. A pessoa, com um braço estendido, indicava-lhe um caminho a seguir. Ao voltar-se para o amigo da família de Clara, este balançou a cabeça suavemente em sinal de aprovação.

Instantes depois ela estava numa sala, sentada numa cadeira, a sós com uma mulher, cuja face não podia ver com clareza, posto que ela se achava numa penumbra.

– Você tem uma coisa importante para me contar, não é? – disse-lhe a mulher, com voz meiga.

– Eu queria conversar sobre uma visão, entende? ou aparição, não sei bem, que tive...

– Conte-me.

E então a jovem relatou os acontecimentos. Falou de passagem sobre os sete sinais.

– Conte-me sobre as revelações, os sinais. De que serão? – pediu a mulher.

Cristina ficou calada e pensativa. Não tinha vontade de estender-se. Ins-tantes depois a mulher voltou a falar.

– Você foi incorporada por um espírito.

– Incorporada?...

– É, incorporada, e por um espírito superior. A luz azul era um espírito superior.

– Espírito superior?...

– É. Você tem poderes mediúnicos. Você também é um canal para ex-pressão dos espíritos. Mas, por favor, conte-me o resto – insistiu ela com voz sedutora.

Ao ver que aquela mulher sabia que ela ocultava uma parte da história, a jovem cedeu.

– Você foi escolhida – comentou a mulher ao final.

– Me esclarece a questão do pensamento, de receber instrução pelo pensamento... – suplicou a moça.

– Isto não é coisa rara. Os espíritos usam todos os meios para se comu-nicarem. Ninguém sabe por que um espírito escolheu esta ou aquela forma para comunicar-se. Mas imagina uma pessoa surda... ou cega... é claro que o contato pode ser feito com ela também.

– Então você acha que tudo isso aconteceu mesmo?

– Tudo isso aconteceu e vai continuar acontecendo.

– E a voz feminina, clara, limpa, ali pertinho?

– Igual a sua voz, não era?

– Era ! – respondeu surpreendida com a pergunta, pois não havia comen-tado tal particularidade com ninguém.

– Esse tipo de incorporação não é comum, mas indica que você será um veículo especial.

A jovem fez outras perguntas prontamente respondidas pela mulher. Recebeu desta convite para participar de reuniões em um centro espírita, do qual se esquivou de modo educado. Na despedida a m ulher fez um alerta:

– Você deve ficar atenta a tudo que te acontecer relacionado com “ gerais ”. Mensagens, revelações, podem ser explícitas, solenes até. Mas podem ser sim-bólicas e vir através de outras pessoas, e até de animais.

– Mensagens?

– É. As instruções poderão ser para você fazer algo concreto ou falar ou mesmo escrever coisas especiais. Ou ainda, fazer, falar e escrever. Quando se trata de falar ou escrever, dizemos que são “mensagens”. Fique atenta!

Cristina saiu um pouco impressionada daquele encontro, como de resto, já vinha ficando com a confusão que se instalava em sua vida. Ela se via diante de explicações que punham em xeque toda a sua rígida formação científica. Até o início daquilo tudo ela se mostrara pouco aberta a entender, ler e discutir coisas que ocorriam à margem daquilo que é chamado de fenômeno científico, mas agora era diferente. Embora continuasse com uma pontinha de dúvida, teve a sensação de achar-se no centro do que diziam ser uma experiência espiritual.

Passado um tempo suficiente para que as emoções se assentassem, a pontinha de dúvida começou a pulsar. Pensando bem, tive opiniões... mas fatos, fatos mesmo, não tive nenhum. O psiquiatra ! lembrou. Ele pode escla-recer tudo !... E aquela consulta, que no começo parecera um abuso, uma intromissão inaceitável de sua família, era agora desejada, bem-vinda até, pois a incerteza estava começando a incomodar muito. Pelo menos ele tem uma formação técnica. Saio do campo religioso e escuto uma opinião de caráter científico.

 

O psiquiatra, após a entrevista, entregou-lhe um parecer escrito. Antes de se levantar e sair, a jovem o leu. Começava dizendo que sua história era sugestiva de um distúrbio mental transitório. Que ela vira e ouvira coisas que não aconteceram, às quais deu o nome de alucinações visuais e auditivas. Que havia a hipótese de ela apenas ter passado por um estado parecido com sonho, o que ele chamou de experiência onírica. Que depois do fato, seguiu-se um período de pensamentos repetitivos e incontroláveis, aos quais cha-mou de obsessivos.

Cristina não gostou desta parte, mas sentiu um pequeno alívio – o que realmente se passava podia ser algo muito diferente do que ela vinha pen-sando e sua vida não precisaria mudar. Por isso, o que leu a seguir, deixou-a um pouco apreensiva.

O parecer dizia ainda que, no contato direto, percebera que ela estava com os pensamentos bem estruturados, com o raciocínio lógico e as emoções adequadas. Em outras palavras, dizia que, no momento, ela estava bem. Is-so reforçava, no entendimento dela, a hipótese de ser verdadeiro tudo o que se passara, e assim, sua vida poderia mudar. No final estava escrito que, para um diagnóstico preciso, seria necessário submetê-la a exames e obser-vação por mais tempo.

Em síntese, a avaliação era inconclusiva – de um lado sugeria que ela tivesse passado por uma perturbação e de outro dizia que aparentemente ela estava normal.

A caminho de casa, a jovem foi ponderando a sua situação. Havia muitas opiniões, alertas, conselhos. Para que lado ir? Acabou tomando uma decisão. Fico com minha voz interior: vou em frente, haja o que houver. E prometeu a si mesma não voltar mais a esses assuntos.

Numa reunião formal com os pais, tios e o amigo da família, a moça entregou o parecer escrito do psiquiatra, mas não fez referência ao encontro com a mulher espírita. A resistência foi sensivelmente menor. A serenidade da moça, a sua atitude compreensiva diante das preocupações da família e do interesse que ela percebia neles em relação ao seu destino, fizeram o divisor de águas. Os ânimos estavam apaziguados.

 



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