|
Capítulo 2 – Missão Desconhecida
Preparativos para a Missão Desconhecida
E ntre os fragmentos de lembranças, ali no ônibus, vieram-lhe também os acontecimentos após a decisão de ir para os gerais.
“Informe-se sobre a região e prepare-se.”
Este pensamento tinha a mesma característica imperativa do outro. A moça o entendeu como instrução, relacionada com o episódio do acampamento.
Fez tudo que estava ao seu alcance. Passou horas e horas em bibliotecas. Estudou as características geográficas da região. Fez incursões pelo campo da agronomia, sobretudo da origem e estrutura dos solos. Caminhou pela mineralogia, principalmente pelo quartzo ( abundante por lá ), desde sua for-mação na natureza até suas aplicações na eletrônica, passando pela mine-ração e processos industriais. Ficou alguns dias numa fazenda de amigos, próxima a Belo Horizonte, para conhecer melhor a vida rural. Fez contatos com pessoas que vieram da região. Vendeu o carro para comprar e fazer coisas que julgava necessárias para a viagem e ter uma pequena reserva de dinheiro – coisas que iam desde um par de botas, passando por livros técnicos, até a reforma na sua tralha de acampamento.
Escolheu Itacambira como base porque o município encontra-se bem na porta dos gerais e perto de Bocaiúva, a cidade onde vivera seus primeiros anos de vida. Havia poucas informações sobre o município – território exten-so, população em torno de cinco mil habitantes, três pessoas por quilômetro quadrado, muitas montanhas, estradas de terra, situado no Vale do Rio Jequitinhonha.
Os dados oficiais a respeito desse Vale eram escassos, mas o que Cristina encontrou foi de estarrece r. Quarenta e um por cento da população com mais de quinze anos de idade eram de analfabetos. Entre os que tinham mais de vinte e cinco anos de idade, setenta e dois por cento ficaram menos de quatro anos na escola. O contingente de pobres correspondia a setenta e cinco por cento da população. A renda média mensal por pessoa era de menos da metade do salário mínimo. Ou seja, a renda média mensal por pessoa era inferior a cinco gramas de ouro, pois o salário mínimo correspon-dia, àquela época, a dez gramas de ouro. Grande parte da população devia viver na miséria absoluta, o que fazia do Vale uma das regiões mais pobres do Brasil e do mundo. A jovem ficou ainda mais impressionada quando sou-be, através de informações não oficiais, que o município para onde ia era um dos mais pobres do próprio Vale do Jequitinhonha.
Sobre os gerais propriamente, eram limitadas as informações geográficas. Nem eram descritos oficialmente com este nome. Extraoficialmente referia-se a umas terras altas situadas no nordeste e no norte do Estado de Minas Ge-rais. No relevo predominavam as chapadas e serras. As chapadas tinham solos arenosos, ácidos, cobertos de vegetação rala e baixa; podiam ter ar-bustos ou árvores de pequeno porte; superfície, em geral plana. As serras eram constituídas de rochas ou solo quase estéril; em alguns municípios produziam minerais de interesse comercial, incluindo-se pedras preciosas e semipreciosas. Em proporções pequenas, havia áreas com solos menos areno-sos, cobertos de vegetação mais densa e alta, mas ainda muito ácidos, o cer-rado. Pouquíssimo solo fértil. O clima era tropical, semi-úmido. O período de chuvas era curto. Os limites eram imprecisos.
A moça achou que devia buscar mais informações com pessoas da pró-pria região. Sua mãe ajudou muito, nesta parte. Em contato com amigas de Bocaiúva e Montes Claros, a primeira uma cidade pequena, e a segunda, de porte médio, obteve seis endereços de pessoas que saíram dos gerais e moravam em Belo Horizonte, e os passou à filha. A moça foi a todos. Dois deles tiveram momentos importantes.
O primeiro foi com um homem loquaz, de uns quarenta anos, que se um-dara para Belo Horizonte para fazer tratamento de doença de Chagas, endê-mica na região. Seu linguajar rude e repleto de erros escondia um pensa-mento esperto. Indagado sobre Itacambira, ele respondeu:
– Bão, Itacambira, o lugar, num é uma cidade grande não; lá tem pouco recurso. Agora o município é grande, muito grande. Tem muito morro, muita chapada, muita areia e pouca água. É afamado por ter muito cristal, num sabe?
– Cristal de quartzo? Quero dizer, de rocha?
– É esse mesmo, uai! Se mal pergunto, por que ocê tá perguntando essas coisa?
– É... é porque vou pra lá – disse ela, meio titubeante, sem saber se deveria falar dos seus propósitos.
– Vai pra lá ou vai lá? – voltou ele, com sutileza.
– É... você tem razão, vou lá... – Ainda titubeante, ela lembrou-se de como tinha sido difícil explicar sua viagem para as pessoas e, pensando rápi-do, viu que com aquele homem seria mais complicado ainda, e aí ocorreu-lhe uma idéia : Pesquisa... E então respondeu com firmeza : – Vou fazer umas pesquisas na região.
– Ah... pesquisa... Uma vez passou uma pessoa lá em casa, ele pergun-tava os nome das pessoa, as idade, quantos tava na escola, coisa e tal. Ele disse que era pesquisa, num sabe? É isso que ocê vai fazer lá ?
– Não, não, não é esse tipo de pesquisa não – respondeu a moça que, pretendendo acabar com o assunto, emendou: – Vou fazer pesquisa mineral.
– Num diga que ocê vai percurar ouro, ou diamante ou cristal... – comen-tou o homem em tom irônico, enquanto a examinava de cima em baixo.
– Também não. – Aí ocorreu-lhe dizer algo que ele não entendesse: – Vou fazer pesquisa mineral avançada.
– Ah!... bão... – sussurrou o homem de modo ambíguo.
Cristina ficou um pouco envergonhada com a solução dada ao problema. Após um breve silêncio, em que o homem parecia saber o que se passava, ela retornou ao diálogo.
– Mas, e os gerais, a seca... você gosta de lá?
– Gosto!... E ocê sabe: todo mundo gosta do lugar que nasceu. Só fico aqui porque perciso, num sabe? Agora, a seca, até que ela é boa em certas parte. Por inxemplo, como tem poca água, o leite das vaca tem menas água e aí o queijo é muito mais gostoso, num sabe? O queijo do gerais é afamado. Outra parte: quando chove, a gente fica muito alegre. Mas que lá chove poco, isso chove. Chove mesmo em novembro e dezembro. Depois costuma cair umas pancada em fevereiro e março, mas num é em todo lugar não.
A moça permaneceu atenta às informações e à maneira de falar daquele homem. Ele se mostrava solícito e parecia uma pessoa alegre. Numa certa altura Cristina comentou sobre sua esperteza, ao que ele respondeu:
– No gerais, a gente pode ser ingnorante, mas burro nós num é não.
No final da conversa o homem deu um conselho:
– Já que ocê vai mexer com minério, andar nos mato, era bão levar uma bota. De sola de borracha bem grossa, pra num escorregar nas pedra. E de cano comprido, por causa das cobra.
A jovem ficou imaginando a dureza da vida nos gerais. ‘ Apesar da vida difícil por lá, até agora não vi sinal de que sejam infelizes.’ Esta observação confirmava o que já havia pensado: felicidade e facilidade de vida não estão, necessariamente, juntas.
Medo e Coragem
O segundo encontro que a impressionara foi com um homem de quase oitenta anos. Ele viera do município de Grão Mogol, bem no coração dos gerais, e falava de modo fluente, seguro. A certa altura o homem indagou:
– Qual é o segredo dessa viagem?
– Segredo?
– É, segredo. Todo mundo tem os seus segredos. E uma moça como você não vai pros gerais à toa não.
– Eu não tenho segredo nenhum... – respondeu ela titubeante.
– Tem sim. Todo mundo tem coisas que não conta pra ninguém, nem pro padre nem pro amigo mais íntimo.
A moça ficou chocada com essa informação. Lembrou-se de Clara, do que lhe contara sobre a viagem e do que omitira, e de outras coisas que não contava a ninguém. Achava que esse tipo de coisa só acontecia consigo, que só ela, Cristina, tinha coisas a serem escondidas dos outros. O homem, que a olha-va fixamente, interrompeu o silêncio :
– Não esquenta a cabeça não. Estou dizendo apenas que você é como qualquer pessoa, igual a qualquer outra jovem – tem os seus segredos. É simples...
Cristina não sabia o que dizer. Aquele homem agora estava dizendo que ela era semelhante às outras jovens exatamente pelos motivos que a leva-vam a julgar-se diferente... O homem voltou a falar :
– Todo mundo tem direito de ter segredos. Só tem uma coisa: quanto mais segredos tem uma pessoa, mais ela precisa se esconder dos outros. E quer saber de uma coisa? – Cristina balançou a cabeça. – Em geral é um monte de bobagens, coisas banais, que ninguém ia se importar com elas porque são iguais às que os outros escondem também. Quero te falar outra coisa: se quiser uma opinião sincera minha, precisa ao menos dizer o segredo dessa viagem.
Ainda atordoada, a moça pensou numa resposta. Sabia que a “ pesquisa mineral avançada ” não funcionaria com ele. Sabia também que não adian-taria mentir, nem falar tangencialmente. Era falar tudo ou não falar nada. Decidiu falar tudo.
– É uma expectativa e tanto! – comentou o homem após a narrativa.
– Isso te impressionou? – voltou a jovem prestando atenção no seu ros-to, à procura de alguma crítica ou ironia.
– Não. Depois de tudo que já vi na vida, acho que tudo é possível.
– Às vezes fico pensando, ir pra lá, pra uma fazenda qualquer, fazer o quê? Entende? Fico achando que é muito vago... E numa hora, de repente, ter essas revelações...
– Paciência... – a voz sugeria conformismo. – A gente não tem controle sobre os acontecimentos. Às vezes não controlamos nem os pensamentos. Vivemos na incerteza, mas ela é um dos mais deliciosos mistérios da vida. Ninguém pode afirmar como será o seu amanhã. E quem flutua nessa incer-teza obtém o que a vida oferece de melhor. Uma vez lá você vai poder defi-nir o que fazer, desde que se deixe levar pela corrente. Tem de ficar atenta, vigilante, prestando atenção na natureza e nos sinais dela.
– Eu estou indo, estou me deixando ir, melhor dizendo...
– Ótimo! Você vai ter a sua própria experiência, uma coisa concreta, só sua, que ninguém pode passar pra você, porque a experiência é concreta quando se vive, mas abstrata quando se transmite.
– Mas tenho um pouquinho de medo, lá no fundo... entende?
– Ótimo ! O medo preserva a vida, mobiliza as energias, impulsiona a pés-soa. Você deve ser grata por sentir medo.
A jovem achou estranho esse comentário. Medo era uma coisa que ela procurava dissimular, pois era sinal de fraqueza e agora aquele homem estava dizendo que era ótimo, que era motivo de gratidão... Havia algum equívoco ali. Ou toda a humanidade estaria errada? De novo o silêncio foi interrompido pelo homem:
– Todo animal sente medo. A coragem não é o oposto do medo; é sua irmã. A coragem e o medo são filhos do perigo. É preciso ter coragem pra enfrentá-lo ou pra correr.
– Coragem pra correr?...
– É. Quando se enfrenta o perigo, a coragem embaça o medo e quando se foge, o medo fica evidente. Mas que ele está presente nas duas situações, está. Quando a melhor solução é correr, o que se tem de fazer é correr; mas aí precisa de coragem... coragem para encarar um outro perigo, as críticas dos outros.
– Às vezes fico achando que o problema nem é a crítica dos outros, mas a minha mesma, entende?
– Entendo. Mas isto é uma bobagem, um engano seu. As críticas suas são as críticas dos outros que estão dentro de você. Elas não nasceram com você.
Cristina ficou pensativa. Achou que ele tinha razão. Pensou até que, nos últimos anos, havia se tornado muito rigorosa consigo mesma. Ela retomou o diálogo:
– Então não tem nada de mais em ter medo?
– Não. O único problema é se a pessoa ficar paralisada, não atacar e nem correr. Aí tem problema.
– A viagem... fico achando que pode haver algum risco...
– A vida é um risco permanente para quem quer usufruí-la.
– Mas eu não quero morrer agora – disse ela com a voz meio sumida.
– Não exagera, né? Recoloque a sua morte num momento da eternidade. Volte a ser simples. Volte à sabedoria intuitiva de todo ser humano: a morte é inevitável, mas ela está tão distante que vai demorar uma eternidade para te alcançar. Quer coisa mais sábia do que esta? Eu e você somos eternos. A morte só vai pegar os outros – concluiu piscando um olho e fazendo uma expressão marota com o rosto.
Cristina começou a achar a conversa daquele homem curiosa, encora-jadora e até engraçada. Ao sentir-se bem à vontade, resolveu falar de outras dúvidas.
– A missão... às vezes fico pensando que pode ser um grande equívoco meu, entende?
– Entendo. Mas que você tem uma missão, você tem. Aliás você já está em ação. Fique concentrada no que tem de ser feito e a missão dará bom resultado. O resultado só depende de você, de sua fé. Se você acreditar que vai acontecer, acontece. Se tiver dúvidas, não acontece.
Aquele homem estava se referindo agora à Profecia Autocumprida. Se uma pessoa profetiza um acontecimento e tem fé, ela acaba contribuindo, mesmo que de modo inconsciente, para o seu desfecho. Se a expectativa é de acontecer uma coisa boa, ela vai agir num sentido, de modo favorável. Se a expectativa é de uma coisa ruim, ela vai agir de modo desfavorável. Em ambos, sem perceber, ela vai acionando os fatores que levam ao desfecho profetizado. Mais tarde, quando pensa no assunto, tem a impressão de que tudo aconteceu à sua revelia, independente de sua vontade e de suas ações.
– Tenha fé ! – recomendou o homem ao final.
Visão dos Gerais
A viagem até Bocaiúva deveria durar cerca de cinco horas para cobrir um percurso de trezentos e setenta quilômetros. Cristina passou todo esse tempo envolta em pensamentos e lembranças. Conversou pouco com seu companheiro de poltrona. Ao descer do ônibus era quase meio-dia. Foi recebida por alguns amigos, que na verdade eram mais amigos de seus pais do que dela própria, e que estavam ali atendendo a um pedido deles, feito por telefone, na véspera.
Apesar dos insistentes convites para que passasse o dia na cidade, a moça, logo após o desembarque, comprou a passagem de ônibus para Ita-cambira. A saída estava prevista para as dezesseis horas. Havia tempo para atender, ao menos, ao convite de um deles para almoçar.
Ao sair da cidade, um velho ônibus que a levaria a Itacambira, seguiu para o leste, através de uma estrada poeirenta. Este não era o único descon-forto. Superlotado, transportava pessoas em pé, que se espremiam. Parava a todo momento para deixar alguém ou receber novos passageiros. O calor, de início de setembro, era quase insuportável. Os noventa quilômetros deveriam ser percorridos em três horas e meia, podendo chegar a quatro. Após a terceira e última localidade antes de Itacambira, o ônibus ficou quase vazio; uma mulher sentou-se ao seu lado.
As duas falavam coisas triviais. A certa altura, a moça comentou, enquanto observava a paisagem: – A região está começando a ficar morrada.
– Morro mesmo, você vai ver daqui a pouco. Tá vendo aquela serra lá? Nós vamo subir ela.
– Não acredito... parece um paredão de pedra!...
Ao aproximarem-se do pé da tal serra, Cristina notou que era uma cadeia extensa, toda de rocha, com pouca vegetação e raros arbustos. ‘Do outro lad o fica um outro mundo...’ pensou.
No alto da serra descortinou-se a paisagem dos gerais. A primeira im-pressão foi a de estar viajando no topo do mundo. De um lado e do outro da estrada estendiam-se cadeias de montanhas semidespidas em várias dire-ções. Por um momento, elas pareceram-lhe um flash cinzento de um mar agitado. Depois pareceu que elas se contorciam, como se estivessem tendo um espasmo dolorido. Céu intensamente azul, sem nuvens. Mais próximo, a paisagem quase morta de uma chapada – muita areia, pedras e arbustos retorcidos. Aquela visão fez o coração de Cristina disparar. Uma mistura de emoções ocupou-lhe o espírito : expectativa, medo, alegria. O que ela viu, era-lhe familiar.
– Já estamos nos gerais? – perguntou à mulher, só para confirmar.
– Acabamo de chegar.
Essa mesma impressão de familiaridade ela tivera muitos anos antes quando, ainda menina e já morando em Belo Horizonte, fizera, com os pais, uma viagem mais para o norte, também nos gerais. Naquele passeio ela não conhecia a denominação “gerais”, mas teve o pressentimento de que voltaria àquela região. Chegou a pensar que devia ter nascido por ali, pensamento que guardava como um dos seus segredos.
Durante anos pensou coisas em torno desse segredo. As conjeturas va-riavam no tempo, conforme evoluíam seus conhecimentos. Houve época em que recordava a imagem da região e a definia como bonita. Mais tarde agre-garam-se hipóteses de memória genética, reencarnação e vidas passadas para explicar sua ligação com aquela paisagem. Essas hipóteses foram comple-tamente banidas de suas conversas quando ela recebeu, depois de algum tempo na Universidade, influências contra qualquer conhecimento que não ti-vesse passado pelo rigoroso crivo da investigação científica. Agora, estava ela ali, reencontrando-se com esse seu segredo, livre para pensar o que quisesse.
A hipótese da memória genética, que envolve conhecimentos herdados, surgiu quando ela leu, numa revista leiga, o relato de um experimento científico em que um pesquisador colocou ratos famintos e sedentos dentro de um labirinto de madeira. Colocou um rato de cada vez. O animal ficava rondando por ali, chegava em passagens obstruídas, até encontrar a saída, na qual havia alimento e água. Com o passar do tempo, os ratos aprendiam o caminho certo e chegavam logo na saída. Fez o mesmo com os descendentes destes. Mais tarde ele fez uma observação controlada. Colocou uma geração desses ratos, quando já adulta, no labirinto, a fazer a mesma coisa que os seus ancestrais, e anotou os resultados. Esse grupo de ratos foi chamado de experimental.
Em seguida, fez a mesma coisa com outro grupo de ratos, também adul-tos, cujos ancestrais não haviam passado pela experiência no labirinto. Esse segundo grupo de ratos foi chamado de controle. Ele queria saber se havia diferença no tempo gasto para aprender o caminho da saída, em função da aprendizagem dos antepassados.
Ao fazer os cálculos, o pesquisador observou que o tempo médio para aprender o caminho era menor para os ratos do grupo experimental. Teria a aprendizagem dos antepassados provocado alguma alteração genética, a qual estaria contida nos genes dos descendentes ? Teria eu nascido lá – quês-tionava-se logo após a leitura desse experimento –, e a impressão de já ter visto a região seria uma simples lembrança do que está registrado no meu ordenamento genético ?
Além da possível transferência da aprendizagem, por via biológica, de pai para filho, a palavra “ média ” chamou-lhe a atenção. Quando o pesquisador disse que o tempo médio gasto pelos descendentes dos ratos do grupo expe-rimental para achar a saída no labirinto era menor, estava dizendo também que havia diferenças, entre eles, no tempo gasto para aprender o caminho. Uns gastavam mais, outros gastavam menos. E os tempos dos que gastavam menos eram muito baixos.
Então eu posso pensar – ruminava ela – que alguns ratos são, por um motivo qualquer, mais capazes de transferir para os descendentes, através dos genes dos espermatozóides e dos óvulos, o que aprenderam. Isso pode implicar numa cadeia de conhecimentos ou habilidades que são transferidos, perdem-se com os cruzamentos e emergem mais tarde em outra geração. Um rato, na enésima geração, pode ter o circuito do labirinto restabelecido e até sair com facilidade de uma situação mais complexa.
Daí, para fazer uma comparação, foi um pulo : Com Einstein pode ter ocorrido a reativação de circuitos remotamente formados que, associados a novos conhecimentos adquiridos por ele, possibilitaram a elaboração da Teo- ria da Relatividade... Talvez seja assim que a ciência e a humanidade avançam. Porque a humanidade caminha pelo esforço da média, mas avançar, dar saltos, é só pela criatividade das exceções.
Entretanto, ela já sabia da existência de sérias dúvidas a respeito do assunto. A memória é um processo pouco conhecido. É possível que ele envolva várias substâncias biológicas. Seja qual for a essência do processo, o sítio dos acontecimentos são as células nervosas, o cérebro. Para que esses registros passem de uma geração para outra, é necessário que os genes dos espermatozóides ou dos óvulos, as células germinativas, sofram mudanças específicas e não se tem conhecimento de que isso acontece. Tampouco é conhecido o processo de armazenamento de dados, conhecido como memorização.
Mais tarde Cristina entrou em contato com textos que faziam referência a reencarnações e vidas passadas, os quais, pelo caráter especulativo, foram lidos com reservas. Entretanto, incentivaram outro tipo de pergunta em torno daquele seu segredo: Teria eu vivido lá, em outras vidas, em outras encarnações? O freio do rigor científico não era capaz de conter indagações como esta. Mas Cristina cuidava para que os outros não ficassem sabendo delas. Escondia também o que especulava em relação ao cosmo.
Eternidade, infinito, Universo, quasares, pulsares, galáxias, estrelas, sistemas solares, eram temas que a atraíam de modo quase hipnótico. Eram os seus preferidos para dar asas à imaginação. Nas fantasias visitava estrelas, plane-tas, buracos negros, galáxias, chegava nos limites do Universo e “olhava” o que havia do lado de lá. Pensava, formulava hipóteses sobre o que “ via ” ou lia.
A jovem reconheceu que o panorama semidesértico que se descortinava da janela daquele ônibus, estava entranhado em seu corpo e na sua alma. Naquele momento teve a convicção, embora não tivesse dados objetivos e nem subjetivos para sustentá-la, de que nascera naquela região.
{ Leia Genes e Cromossomos }
Adoção
J onatas e Marta não possuíam filhos, embora os quisessem arden-temente. Um dia receberam um recado do médico, diretor do hospital de Bocaiúva : deveriam ir até lá e procurá-lo.
– Temos aqui uma menina e precisamos de um casal pra adotá-la. Pensei em vocês – disse-lhes o diretor.
Os dois foram tomados de muita emoção com a notícia. Esse era um assunto sobre o qual já haviam conversado e decidido. Apenas aguardavam a oportunidade e, talvez, ela estivesse chegando naquele dia.
– O bebê foi encontrado hoje de manhã ao lado da porta de entrada do hospital – voltou o diretor informando. – Estava dentro de um balaio, envolto em panos simples e dormia tranqüilamente. Ao lado dela estava este bilhete – concluiu ele estendendo-lhes uma folha de papel dobrada.
Jonatas e Marta leram juntos o que estava escrito. A mãe dizia que não sabia como engravidara, pois era virgem; que os pais não a aceitavam em casa por considerarem aquilo uma vergonha; que saiu do lugar onde mora-va, andou meio mundo fazendo trabalho braçal e tivera a criança uma sema-na antes; que a amamentara com o produto de sua própria carne, pois já não tinha o que comer, nem onde morar; e finalizava pedindo que uma alma caridosa criasse sua filhinha. O grande número de erros na escrita e as letras garatujadas mostravam que a mãe era apenas semi-alfabetizada.
– Como ela está? – perguntou Jonatas.
– Ótima. Inclusive o pediatra examinou-a e disse que é um bebê saudável.
Os dois foram conduzidos a um pequeno quarto, do modesto hospital, que era o berçário. Os três se acercaram. Depois de olharem a menina, Jô-natas e Marta levantaram as cabeças ao mesmo tempo e se olharam. Um viu nos olhos do outro a expressão de felicidade.
– Ela é linda ! – exclamou Jonatas, ao mesmo tempo que dobrava o bilhe-te que ainda trazia na mão e o colocava no bolso.
– É um amor... – fez coro Marta.
Seguiram-se outras exclamações de alegria e surpresa de ambos. Cha-mou a atenção o fato de que a garota estava acordada, tinha a face serena e acompanhava, com os olhos, a intensa movimentação de Jonatas e Marta em torno do berço.
– Ela é muito precoce. O pediatra disse isso e a gente vê que é mesmo – comentou o diretor.
Nos dias posteriores cuidou-se da adoção. Cristina veio preencher o único vazio que havia na vida daquele casal. Entre os muitos planos que fizeram para a menina, estabeleceram que lhe contariam sua verdadeira história caso ela, algum dia, indagasse qualquer coisa do gênero.
E isso aconteceu muito cedo, quando Cristina começou a freqüentar a escola. Alguém comentou uma diferença grande entre a aparência dela e a dos pais. Em casa, a menina ouviu o relato, feito por ambos. S entiu muita pena de sua mãe biológica e limitou-se a fazer duas ou três perguntas.
Ao lembrar-se de sua própria história, ali, naquele fim de mundo, Cristina sentiu saudade dos pais e deu-se conta de que era muito grata pelo amor que recebera deles. Constatou, com pesar, que não lhes dedicara toda afei-ção de que eram merecedores. Isso a fez julgar-se um tanto egoísta.
Viu, também, que era querida por muita gente. A recordação das despe-didas, horas antes, na rodoviária de Belo Horizonte, produziu algumas silen-ciosas lágrimas.
– Se você precisar de alguma coisa, procura as pessoas que recomendei – disse o pai ao abraçá-la.
– Vai com Deus, minha filha. Que Nossa Senhora te acompanhe – falou a mãe, entre soluços.
– Promete que vai telefonar hoje mesmo, quando chegar lá? – pediu a tia Luci.
– Não demora, volta logo – recomendou Clara.
– Vamos sentir sua falta – disse um amigo.
– Volta logo Cristina, volta logo – disseram ruidosamente, em coro, os demais.
Do João ela ainda podia sentir a ternura e o beijo já saudoso.
Como é bom ser amada... pensou.
O ônibus prosseguia e, agora, quase não parava para deixar ou receber passageiros. E isso era compreensível : não se viam moradias ou estradas colaterais. Andava-se por vários quilômetros em paisagem semidesértica e, apenas de vez em quando, aparecia, distante, um ou outro sinal de mato mais denso. Já era noite quando começou a descida de uma grande serra, onde a estrada era calçada de pedras. Embaixo estava Itacambira. Pacata, casas humildes e antigas, estendia-se no topo de uma montanha de altura interme-diária. A cidade tinha uma única e comprida rua e não mais do que meia dúzia de entradas colaterais que, de tão curtas, não podiam ser chamadas de ruas. O ônibus parou em frente à igreja, bem no centro, onde a rua se abria forman-do uma praça. A pedido de sua família, lá estavam, para recebê-la, Edvar, a esposa Ângela e dois rapazes, filhos do casal.
Dirigiram-se à casa deles, a poucos metros dali e, logo depois de tomar um cafezinho, a moça foi ao posto telefônico ligar para os pais e a tia Luci. Ao ouvi-los, percebeu o quanto estavam aflitos. Com uma fala tranqüila e carinhosa, ela os acalmou. De volta à casa, foi apresentada a algumas pés-soas que tinham ido lá conhecê-la.
Escolha
N a sala, onde havia um pequeno sofá, algumas cadeiras e uns retratos pendurados nas paredes, tudo muito simples, as pessoas mostravam-se cu-riosas a respeito de Cristina e de sua presença ali. “Está chovendo em Belo Horizonte ?” “ Você não está passeando, está?” “ Você não estuda ?” “ Você não trabalha ?” “ Tinha muita poeira na estrada ?”. Após responder a estas e outras perguntas do gênero, a moça pôde fazer as suas próprias perguntas.
Ficou sabendo que estavam numa estiagem prolongada – havia muitos meses que não chovia, que muito gado estava morrendo de fome, que alguns rios e córregos estavam completamente secos. Ficou sabendo outras coisas mais. Não havia uma única indústria no lugar, nem hospital, nem mesmo farmá-cia e, menos ainda, agência bancária. Enfim, Cristina escutou o desfiar de um rosário de problemas e dificuldades vividas por aquela gente.
A conversa continuou após o jantar – a sala estava cheia, pois os vizinhos ficaram sabendo que a visitante era muito simpática. A moça tinha algumas peculiaridades que cativavam as pessoas – era simples, dava atenção a todos, fazia e respondia perguntas, tecia comentários respeitosos sobre o que diziam.
Cristina informou que desejava passar uns tempos numa fazenda da re-gião. Começaram as sugestões. Com um mapa do município, que levara con-sigo, ela ia localizando as propriedades. Ouvia os comentários sobre cada uma delas. No transcorrer da conversa, veio-lhe, a certa altura, um pensamento imperativo :
“É esta. Vá para ela ”.
Ela apontou para o mapa, e disse:
– Vou pra esta aqui. Pode ser?
As pessoas estranharam a escolha.
– Uai ! Mas lá tem muito morro. Até pra chegar lá é difícil. Só num pedaço de doze quilômetros da estrada gasta mais de uma hora de carro – comen-tou alguém.
– Não tem importância. É pra lá que vou. Se o dono aceitar, claro.
Pela posição geográfica, o comprimento da fazenda era na direção norte- sul e a largura, leste-oeste. Distava vinte e cinco quilômetros de Itacambira.
– O dono é gente boa, recebe todo mundo bem e vive pelejando pras roça e o gado render mais – comentou um dos presentes.
– Além da terra ser espaçosa, é um dos poucos lugares que ainda tem muito minério por aqui; e água, muita água – emendou Edvar. – E por causa de estar bem no meio de uma serra, a seca lá é mais fraca.
A fazenda chamava-se Eldorado. Era muito grande, por isso foi referida como “ espaçosa ”. Tinha várias lavras de cristal, o “ minério ” citado. Ficou com-binado que a moça passaria o dia seguinte na cidade, pois Edvar precisava fazer uns consertos na sua velha camionete para enfrentar a estrada ruim.
Na manhã do segundo dia Ângela saiu com Cristina para apresentá-la a algumas pessoas. O lugar tinha mesmo uma única rua-avenida – em alguns trechos era estreita e em outros, larga e com canteiros de grama no meio. Havia pouquíssimo movimento – um ou outro veículo, uma dúzia de pessoas, se tanto, circulando a pé ou montadas em cavalos. Cada visita parecia um ritual: tão logo se sentavam, ouviam quase as mesmas perguntas e vinha alguém trazendo duas xícaras de café. A jovem ouviu, em algumas casas, coisas que chamaram sua atenção.
Uma mulher disse que os irmãos se casaram e ela decidira ficar solteira para cuidar dos pais. A mãe já havia falecido. O pai, com setenta e cinco anos, estava no quintal naquele momento. Ela o chamou e, enquanto aguar-davam sua vinda, disse que ele sempre foi muito queixoso. Cada dia era uma queixa diferente. Quando ele chegou, caminhando devagar, quase arrastan-do, foram feitas as apresentações. Ângela, amiga de muitos anos, perguntou ao homem como ele passara a noite, se havia passado bem.
– Não devo ter passado bem não – respondeu ele, com voz cansada e chorosa.
– Como ?... O senhor não sabe se passou bem ou mal ? – perguntou Ânge-la novamente.
– É que eu deitei, dormi e não vi. Mas não devo ter passado bem não, porque um homem na minha idade nunca passa bem – respondeu ele, ainda com voz de lamento.
Todos acharam graça.
– Esperem... Esperem... – retrucou ele, fazendo sinal com uma das mãos espalmada e expressão de aborrecimento no rosto. – Vocês vão chegar lá e ver.
‘ Que pena... Ele age como um velho ’ – pensou a moça, lembrando-se do homem de Grão Mogol que, embora mais idoso, tinha a mente muito mais jovem.
A moça notara também que a palavra não estava muito presente nas frases daquela gente. “Você não gosta disso? Você não trabalha? Você não tem namorado?” eram exemplos típicos. Notara também que aquelas pessoas gostavam tanto de conversar, que resistiam sempre à saída delas. “Fica mais um pouco...” era o pedido que mais ouviam.
– Vamos almoçar? – convidou outra mulher de aparência muito simples, com um prato de comida na mão, logo após as apresentações.
– Passamos aqui só pra você conhecer a Cristina – disse-lhe Ângela.
– Come um pouco... – insistiu a mulher com as duas, para completar em seguida: – A comida é pé-dura, mas é franca.
Explicaram-lhe que pé-dura era uma alusão ao antigo gado bovino do lugar – e de todo o Brasil – que era pequeno, pesava no máximo uns trezentos quilos quando adulto e produzia pouco leite ( em torno de um a dois litros por dia ). Cristina entendeu que a mulher queria dizer, assim, que a comida era simples, pobre, mas oferecida com sinceridade. À saída, a mesma mulher deu mais uma demonstração de sua afetividade :
– Volte outras vezes Cristina; minha porta e meu coração estão sempre abertos. – Após uma breve pausa indagou: – Você vai conhecer o Zé Roxo?
– Zé Roxo?!
– É. Você vai gostar dele.
– Quem é ele?
– É um homem que vive na Macaúba – interveio Ângela –, um lugar que tem lá pros lados da fazenda que você escolheu. Ele é meio doido, fala umas coisas esquisitas.
– Mas a Cristina vai entender, tenho certeza! – voltou a primeira mulher.
Em outra casa havia um rapaz que aparentava uns vinte e cinco anos, meio obeso (coisa rara entre aquelas pessoas) e que ficara calado durante a conversa; limitava-se a ouvir, de pé, encostado à parede. Quando o assunto voltou-se para a seca, ele interveio, com uma fala rápida e trôpega: – Aqui num chove, as vaca num cria, o feijão dá pouco.
– Ele é tolo – sussurrou Ângela para Cristina, como se quisesse desculpá-lo e informar que ele portava deficiência mental.
É isto! pensou a moça. Eles convivem com a falta de chuvas, com o gado subnutrido e o solo pobre. Acabava de ficar claro para ela, através de um deficiente, por que usavam tanto o não em suas falas: a natureza estava, quase todo o tempo, negando-lhes o essencial.
Prestando mais atenção, a moça viu que as pessoas falavam muito sob forma de perguntas, com uma inflexão de súplica. Era como se estivessem dizendo, ao mesmo tempo, “ Não me negue, por favor....”. Concluiu, com pesar, que as adversidades da natureza estavam impregnadas até mesmo na fala daquele povo.
A Caminho do Destino
A pós o jantar, reunidos na sala, com a presença de alguns vizinhos, o assunto predominante foi a viagem para a Fazenda Eldorado. A moça foi informada de alguns detalhes, principalmente da estrada ruim. Quando largas-sem a rodovia estadual e pegassem a estrada vicinal, andariam cerca de dezoito quilômetros sem passar perto de nenhuma moradia. A fazenda estava no final, posto que a estrada não era rota para se chegar a qualquer outro lugar, exceto nos primeiros quilômetros em que saía um ramo que levava à região do rio Macaúbas. Comentaram sobre dificuldades específicas de al-guns trechos, os quais tinham nomes exóticos.
– Você deve estar assustada, hem?... – comentou Ângela, voltada para Cristina.
– De jeito nenhum! Estou achando excitante!... Uma aventura, entende? Só não estou compreendendo os nomes.
– Ah... os nomes... é que, aqui, a gente dá nomes aos lugares por onde se passa ou se chega – esclareceu Ângela. – Em alguns é o nome do dono. Em outros, é de um animal ou de um córrego ou de qualquer coisa assim. Mesmo numa fazenda, cada parte tem um nome. Cada parte da Serra do Espinhaço tem um nome também. Por exemplo, aquela parte que fica ali em cima e que você desceu de ônibus ontem, chama-se Serra da Itacambira.
Ao deitar-se, Cristina teve um pouco de dificuldade para dormir. Estava apreensiva. Menos de um dia a separava do lugar envolvido em tantos mistérios.
No terceiro dia da viagem, quando mal o sol esquentara, Edvar, sua família e amigos saíram na camionete, levando Cristina. Ela ia na cabina, com Edvar e Ângela. Foi preciso impor limites, tal era o número de pessoas que queriam ir, apesar do desconforto da viagem, em pé, na carroceria aberta. Se-guiram pela mesma estrada por onde viera o ônibus. Subiram a serra e atin- giram a chapada. Depois de andarem sete quilômetros, entraram à esquerda.
A estrada agora era estreita, mas muito plana – começava a estrada vicinal. Curiosa, a moça fazia perguntas o tempo todo ao casal. Na carroceria as pessoas conversavam animadamente. Em alguns trechos a chapada apre-sentava um capim que, à distância, lembrava um gramado.
– É campina – informou Ângela. – É a parte pior das chapadas. Só tem areia e aquele capim ralo. Só tem beleza; não presta pra nada.
Alguns quilômetros à frente, a estrada bifurcava.
– Esta estrada da direita vai pra Macaúba, o lugar que te falei. É lá que tem o rio Macaúba, que dá diamante – voltou a informar Ângela.
Minutos depois Edvar anunciou: – A parte ruim vai começar.
E de fato começou. Gastaram quase uma hora para vencer doze quilo-metros. A estrada era sinuosa. Podia-se ver que fora aberta usando os espa- ços entre os morros, que eram o principal relevo por ali. Havia também muitas subidas e descidas, repletas de buracos e pontas de pedras, que geravam solavancos e obrigavam Edvar a dirigir devagar e com cautela.
Após uma subida longa e difícil, quase toda sobre pedras, houve intensa comemoração do pessoal que estava na carroceria. Ângela tratou de explicar à moça:
– Eles estão assim é porque o pior já passou. Daqui até na sede da fazenda a estrada é boa. No gerais é assim: a vida é tão difícil que quando acaba uma coisa ruim a gente comemora. O bom que a gente conhece é quando acaba uma coisa ruim.
Esta informação deixou a moça pensativa. Tantas adversidades impediam sonhos, esperanças e faziam com que eles só tivessem alegrias quando a natureza dava uma trégua.
– Estamos chegando no começo da fazenda – anunciou Edvar pouco depois. – É daquela cerca pra frente.
Alguns metros adiante o carro parou perto de uma porteira; um dos filhos de Edvar desceu para abri-la.
Minha nossa !... O que vai acontecer comigo aqui ?... perguntou-se Cris-tina, meio perplexa.
Naquele momento a moça percebera que, diante de tantos obstáculos e n ovidades, havia se distraído completamente. O anúncio de Edvar acordou-a para a realidade.
– Vocês deixam eu descer e entrar andando? – pediu a jovem, num im-pulso.
Surpresos com o pedido, deixaram-na descer e ficaram parados, olhando-a caminhar. Aquilo era algo muito estranho para eles. Ao atravessar a divisa e entrar nos domínios da fazenda, o coração da moça disparou. Uma onda de emoções confusas ocupou-lhe a mente e o corpo. As pernas tremiam tanto que, depois de andar poucos metros, ela teve de sentar-se num pequeno bar-ranco à margem.
‘Será que estou com medo ?’
Edvar arrancou o carro, parou ao seu lado e Ângela quis saber se ela estava se sentindo mal. Cristina disse que não, procurou dissimular o que ocorria e pediu para esperarem um pouco. Alguns segundos depois, sentindo-se refeita, voltou ao carro.
Cerca de cem metros adiante descortinou-se um cenário diferente. Come-çaram a aparecer algumas árvores, sinal de que o terreno era melhor. O relevo era menos acidentado, e as montanhas ficavam mais distantes. Um pouco à frente, pastagens plantadas de um lado e de outro da estrada, em solo are-noso. Cristina, com o tronco erguido, observava tudo.
Mais à frente, depois de uns morrotes, um cenário esplêndido: uma vasta pastagem, com árvores ao fundo, acompanhando a curva natural de uma cadeia de montanhas. Essa cadeia estendia-se na direção norte-noroeste, à direita de onde se achavam na estrada, depois fazia uma curva para o oeste e, por fim, para o sul. Entre as árvores e a cadeia de montanhas havia outra área de pastagem.
Em atenção a um pedido da moça, Edvar foi explicando:
– Lá no fundo, no meio daquelas árvores passa um córrego, o Paulo; a nascente dele é aqui perto, ali do lado direito, no começo daquelas mon-tanhas. Está vendo aquele corte lá no alto, na direção do poente ? – ele apontava a crista de um dos morros que compunham a cadeia de mon-tanhas. – É a lavra da Samambaia, uma lavra de cristal. Aliás, água, nascen-tes e cristal, tem aqui por todo lado.
– Isto aqui é lindo !... é de uma beleza selvagem, a natureza rude contras-tando com o trabalho do homem... – comentou a jovem, comentário que os dois acharam engraçado, posto que eles não viam nada daquilo.
Não havia gado por ali. Tratava-se de um retiro, de nome Buriti, para onde o gado era levado em épocas específicas, como, por exemplo, o pico da seca.
Depois do Buriti, chegaram a um córrego que vinha da esquerda e corria em direção às árvores que abrigavam o córrego do Paulo. Edvar parou o carro antes de atravessá-lo para que um dos filhos, saltitando entre pedras expostas um pouco acima da passagem, abrisse uma porteira existente na margem de lá.
– Que lindo isso aqui ! – exclamou Cristina. – Deixa eu descer um pouco ?
Ângela ficou em pé, ao lado da porta aberta do carro, enquanto a moça se dirigia para as pedras, as quais continuavam para além dos limites da estrada, misturadas à vegetação. A água escorria cristalina e tranqüila entre elas, na harmonia própria da natureza. Com o pé direito apoiado numa pedra exposta e o esquerdo em outra, Cristina, sob os olhares curiosos de todos, ficou observando a beleza do lugar.
– Qual o nome deste córrego?
– Corgo do Capim – respondeu alguém na carroceria.
– Onde fica a nascente?
– Fica longe, no pé de outra montanha que tem uma lavra de cristal – informou um homem.
A moça abaixou-se e, com as mãos em concha, pegou água e levou à boca. Sorveu-a com semblante contrito, como se estivesse fazendo uma oração de agradecimento. Sentiu seu frescor e sabor inigualáveis.
A viagem prosseguiu. Adiante apareceram novas pastagens. Dezenas de cabeças de gado pastavam por ali. Eram vacas e bezerros gordos, lindos. Os animais que estavam mais próximos da estrada pararam de pastar e ficaram olhando o carro passivamente. Agora, à direita, bem perto, estavam as árvo-res que abrigavam o córrego do Paulo. Cerca de um quilômetro à frente, numa elevação, aparecia uma concentração de árvores e casas.
– Lá é a sede – informou Edvar.
Antes da sede, passaram ao lado de uma grande área cercada, à esquer-da, com plantações diversas e trechos de terra nua. Algumas pessoas traba-lhavam lá – parte lidava com máquinas, parte com ferramentas. Também elas pararam com o serviço e ficaram olhando os chegantes. Estavam muito longe para que se pudesse falar com elas. As pessoas, na carroceria, acenaram-lhes com os braços erguidos, em saudação, e foram retribuídas.
– É melhor parar; o Jê pode estar lá – advertiu Ângela. Em seguida virou-se para Cristina: – Jê é o Jeremias, de quem te falamos.
Edvar parou o carro e completou, dirigindo-se à jovem: – O Jê é uma pessoa diferente. Ele pega no batente junto com os filhos e os trabalhadores. Só vendo pra acreditar.
Enquanto aguardavam, a moça pôs-se a observar em volta. Estavam a uns cinqüenta metros do córrego do Paulo e à direita dele havia uma campina muito árida. Depois dela e a não mais do que duzentos metros, ficava a cadeia de montanhas. Ali ela era coberta por uma vegetação rala e esfolada por uma estrada que avançava, fazendo curvas que lembravam uma imensa serpente.
Um homem, com um grande chapéu de palha na cabeça, veio na direção do carro. Era o próprio Jeremias. Cumprimentou a todos de modo festivo e a moça foi-lhe apresentada.
– Vamo acabar de chegar – disse ele, subindo à carroceria.
Atravessaram mais um pequeno curso de água e logo estavam num pátio levemente inclinado, de uns dez mil metros quadrados. No lado mais baixo ficavam várias casas. A de Jeremias se destacava tão-somente por ser de maior tamanho; tinha a mesma simplicidade das demais. Havia, ainda, na-quele pátio, um grande curral no canto superior direito, na direção leste, com uma árvore frondosa ao lado; no canto superior esquerdo, dois galpões – um maior, aberto dos lados, guardava alguns implementos agrícolas, e outro menor, com paredes. Cercas de arame interligavam as construções. No fun-do das casas, um pomar, comum a todas. Contornando tudo isso, pastagens divididas, onde se podia ver vacas com crias. Edvar parou em frente à casa maior e as pessoas que estavam por ali logo se acercaram.
– Esta é Cristina, filha de um amigo meu de Belo Horizonte – disse Edvar, dirigindo-se a todos.
A jovem saiu estendendo a mão em cumprimento, como era costume do lugar, a um por um. Entre eles estavam Filomena, tratada apenas como Filó, esposa de Jeremias, e a filha, de nome Júlia.
Já na casa, após as conversas preliminares sem maior importância, Edvar informou aos donos da fazenda o motivo de estarem ali e perguntou se a moça poderia passar uns dias.
– Mas é claro, uai !... É claro ! Vai dar muita alegria pra gente – res-pondeu Jeremias, voltado para a moça.
– É só você não reparar a simplicidade... – disse-lhe Filó.
A moça participou animadamente da conversa. Notou que Jeremias tinha o semblante preocupado, que de vez em quando se descontraía num discreto sorriso. Sobre uma mesa havia cristais de quartzo. Filó, Júlia e Ângela foram cuidar do almoço e Cristina juntou-se a elas na cozinha pouco depois. Fogão de lenha, bancos, prateleiras de madeira onde ficavam as vasilhas, uma grande mesa, algumas cadeiras, compunham aquele espaço acolhedor. Limpeza e simplicidade eram próprias daquela casa.
|