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Resgate do Passado

Um encontro da religião com a ciência - Romance

O Número Quarenta na Bíblia

Mapa da Fazenda - cenário do romance Cristina dos Gerais

cristal quartzo

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Capítulo 3 – Cristal de Quartzo

 

 

Uma Jovem dos Gerais

 

D epois que Edvar e sua turma foram embora, Júlia mostrou a casa para Cristina e disse-lhe que elas ficariam no mesmo quarto. Neste havia um guarda-roupas e duas camas separadas por uma pequena mesa. Sobre esta, alguns objetos, dentre os quais, duas pedras de cristal muito bonitas – uma grande, que pesava uns cinco quilos, e outra pequena, que deveria pesar uns trezentos gramas. Cristina pegou o cristal menor e ficou a admirá-lo.

– Gostou? – perguntou Júlia que, ante a resposta afirmativa, completou: – Então fica pra você.

– Aqui na sua casa tem muito cristal – comentou Cristina, depois de agradecer e guardar o presente na bolsa. – Notei, de passagem, que em todos os cômodos tem pelo menos uma pedra e cada uma mais bonita do que a outra.

– Elas é do tempo que meu pai andou garimpando.

Cristina pediu que Júlia mostrasse a fazenda ali em volta da sede. As duas passaram pelas casas dos trabalhadores.

– Bença – pediam as crianças com as mãos estendidas.

Cristina conversou com algumas delas e viu que eram muito tímidas.

Dali foram em direção ao córrego do Paulo que passava a uns trezentos metros abaixo, margeando a cadeia de montanhas. Júlia informou-a que ele era um dos muitos que nasciam na fazenda. A água era cristalina, mas pouca naquela época do ano. Tão pouca que era possível atravessá-lo pisando em blocos rochosos que formavam uma espécie de barragem natural. A mon-tante, havia um grande poço. Os filetes de água que passavam pelas depressões e fendas das rochas juntavam-se a jusante e em seguida se precipitavam numa bela cascata de quase dez metros de altura. As duas sentaram-se numa das margens, bem perto da cascata e ficaram conversando. Júlia era tímida e falava pouco.

Num dos períodos de silêncio entre as duas, Cristina ficou pensando na sua presença ali. Estava a cerca de quinhentos quilômetros da família, de João, dos amigos, do trabalho, da universidade, de sua vida enfim. Estava ali, um lugar isolado, num ambiente simples, quase pobre. Estava ali, após o desenrolar de acontecimentos, movida por uma fé e uma força até então desconhecidas por ela. Estava ali para encontrar-se com o seu destino.

– Eu tenho vontade de sair daqui – disse Júlia, interrompendo seus pensamentos. – Ir pra Montes Claros, Belo Horizonte, São Paulo...

– Por quê?

– Porque aqui é muito parado. Num acontece nada. Os dias... é tudo igual. Eu até que gosto do sossego daqui, mas às vezes enche falar só de roça, gado, sabe como é, né?

Júlia, apesar de ainda jovem, parara numa das encruzilhadas da vida. Tinha as aspirações de consumo próprias da idade, mas faltou-lhe disposição para continuar os estudos e o trabalho paralelo de balconista em Montes Claros ou aprender um ofício que lhe permitisse ganhar o dinheiro necessário para fazer e ter as coisas que queria. Insatisfeita também com a vida na fazenda, estava entregue à sorte. Iludia-se dizendo que apreciava o sossego de lá.

– Às vezes sinto falta do “agito” – continuou –, aí dou um jeito de dar uma saída. Vou em Itacambira, Bocaiúva, Montes Claros. Aproveito quando meu pai ou alguém vai num desses lugar e vou junto. Se passa muitos dia, eu dou uma desculpa, falo que tô com uma dor de cabeça muito forte, uma coisa assim... que preciso ir no médico. Isto é segredo, num vai falar pra eles, hem?...

– Tudo bem. E aí seu pai te leva...

– Às vezes leva, às vezes não. Se a vontade é muita, vou sozinha em Ita-cambira, de a cavalo.

– A cavalo?... Essa distância toda, e sozinha?...

– Tem uma estrada cavaleira; ela é mais curta. Gasto só umas duas hora e meia – respondeu Júlia com uma ponta de orgulho.

As duas jovens continuaram falando sobre a vida no meio rural e na cidade. E Júlia, que já estava mais à vontade, surpreendeu Cristina com uma confidência:

– Vou te contar uma coisa. Umas vezes, lá em Montes Claros, eu ficava pensando, pensando na vida: Pra que esta correria toda? E achava que no fundo era só por causa de dinheiro e trabalho.

– Você ficava pensando na razão da vida ?... – voltou Cristina admirada, pois Júlia, além da instrução formal limitada, pareceu-lhe, até então, sim- plória. Pensava que pessoas assim não se questionavam sobre temas existenciais.

– Num sei se é isto não. Ficava pensando naquela correria e achava, achava não, acho, que é só por causa de dinheiro e trabalho, né?

– Você acha que devia haver outra justificativa?

– Acho, mas num tem, né? Pensa bem: a gente fica correndo atrás do dinheiro, descansa no fim de semana e depois começa a correr de novo.

A conversa derivou em seguida para rapazes, namorados, amor. Cristina surpreendeu-se com outra informação da moça: ela teve alguns namorados, mas não se apaixonara.

– O seu coração não disparou com nenhum ? Júlia respondeu que não. – Você nunca se sentiu nas nuvens com nenhum ? Novo não. – Você nunca sentiu que tinha uma ponte entre o seu coração e o de alguém ? Júlia, bai-xando a cabeça, limitou-se a balançá-la em sinal negativo. – Você sabe o que eu estou dizendo?

– Claro, né? Num é porque a gente vive aqui na roça que num sabe que existe amor, uai.

– Desculpe-me. Eu não quis desfazer de você. Mas você nunca amou?

Júlia, que continuava de cabeça baixa, respondeu:

– Nunca senti isso não.

– Oh... que pena...

– Mas eu num sinto falta não – voltou ela, levantando a cabeça.

– Não sente falta?!

– Não. Vou te falar uma coisa: num sei se falo... é um segredo...

– Sobre este assunto?

– É... Mas você jura que num fala com ninguém? – “Juro!” – É que eu já pensei neste trem e acho que nunca vou sentir isso não.

– Nunca vai sentir?! E como é que você sabe que nunca vai sentir?

– Eu sei; a gente sabe...

As duas se calaram. Para Cristina, que vivera cercada de amor, e amava tanto, era estranho ouvir uma pessoa, jovem como ela, dizer aquilo. Curiosa, retomou a conversa:

– E você não se sente só? – Ante a expressão de Júlia, de aparentemente não ter entendido a pergunta, continuou: – Não sente um vazio, um frio por dentro?

– Frio ?... Num sei o que que é isto não. Só tem uma coisa : como todo mundo da cidade fala nesse trem, fico achando que tem uma coisa errada comigo, fico achando que eu tinha de sentir também, né? Entendeu agora porque que eu te pedi segredo, né? Fico achando que sou diferente das outra, que tem um trem errado comigo...

– Deve ser tão ruim pra você...

– Num acho não...

Júlia revelara sua incapacidade de amar, sua certeza de que outras pés-soas tinham a mesma limitação e, mais surpreendente ainda, que isso não era motivo de infelicidade para ela. Cristina ficou impressionada com todas essas coisas.

– E você – voltou Júlia –, o que que você faz?

Cristina relatou-lhe como era sua vida.

Júlia ouviu com enorme espanto, e comentou no final: – Uai! Então você é muito feliz... Tem tudo! Eu que já tava encabulada, fiquei mais agora: o que que uma pessoa igual você vem fazer neste lugar? Descansar?

– Não, vim fazer umas pesquisas.

– Pesquisa?! Aqui?!... Pesquisa de quê?

– Numa outra hora eu te explico. Eu sou mesmo feliz, mas não é por esses motivos que você está falando não.

– Não?!... Então, por que é?

– Ah... digamos que seja um conjunto de coisas, mas o principal é o pra-zer que sinto em quase tudo que faço, entende? Adoro meu trabalho, adoro estudar, adoro meus amigos, e tenho o João...

– Quem é João?

– É a pessoa por quem meu coração dispara... – disse sorrindo.

– Ah... e é bom?

– É bom demais.

– Você num corre atrás do dinheiro?

– Não, não me preocupo com dinheiro.

– Eu, hein!... Deve ser porque você tem muito.

– Não. Não é por isso não. Eu trabalho também, eu preciso trabalhar. O dinheiro vem como conseqüência natural da minha atividade, entende? E faço o que gosto.

– Você só faz o que gosta?!...

– Não, não é bem assim. Por exemplo, às vezes sou obrigada a es-tudar assuntos que não me interessam, mas isso faz parte da vida, entende? Não tem jeito de só fazer o que a gente gosta o tempo todo não.

 

Primeira Manifestação de Poder

 

Cristina sugeriu andarem por perto. Foram a uma área adiante, à es-querda do córrego, onde havia uma horta com vários canteiros. Júlia explicou que cada trabalhador tinha o seu canteiro e colhia para consumo próprio. Na volta, passaram pelo pomar, onde havia pés de várias frutas. Júlia informou que os trabalhadores podiam tirar, à vontade, o que precisavam para consumo da família. Dali se dirigiram a uma pastagem próxima, onde havia umas vacas com bezerros recém-nascidos e outras perto de dar cria. Atravessaram uma por-teira e ficaram paradas, do lado de dentro, enquanto Júlia, atendendo per-guntas de Cristina, ia explicando.

– Aqui em volta é a maternidade – disse ela mostrando uma pastagem com várias divisões em torno do pátio e do pomar. – Quando a vaca tá nos dia de criar, ela fica aqui. Na hora de parir, se for preciso, a gente ajuda. Quando a vaca e a cria já tão bem, elas vão pras manga.

– Manga?

– É – respondeu Júlia, rindo, ao perceber que a visitante tinha associado o nome à fruta. – Manga é uma pastagem grande, com cerca. Quando é pe-quena, chama mangueiro. Aqui na fazenda tem muitas manga e dois man-gueiro. Nos mangueiro fica os animal de serviço.

Encantada com o gado, Cristina começou a caminhar em direção a ele, apesar da advertência de Júlia: – Num vai não! Tem umas vaca brava aí.

Mas ela continuou caminhando devagar e começou a acariciar os bezer-rinhos.

– Volta Cristina! volta! – gritava Júlia. Mas Cristina parecia não ouvi-la.

Mulheres e crianças que escutaram a voz de Júlia, foram para as portas das casas ver o que se passava. Apavorada, Júlia gritou por um vaqueiro que se achava numa outra divisão da maternidade. Este chegou.

– Moça, é pirigoso andar no meio dessas vaca – advertiu ele. E como Cristina não lhe respondeu, ele, que estava montado num cavalo, foi até lá para, se necessário, dar proteção. Mas não foi preciso. A moça caminhava no meio do gado e as vacas não esboçavam nenhuma reação. Após algum tem-po, sempre acompanhada pelo vaqueiro, voltou para onde se encontrava Júlia que, com o semblante ainda apreensivo, comentou:

– Você num sabe o perigo que correu. Quase toda vaca aqui fica brava quando tá com cria nova. Num sei como que nenhuma avançou em você...

– Eu não sabia que tinha perigo, entende?...

– Você teve sorte – respondeu Júlia.

– Num pode facilitar não – advertiu o vaqueiro.

No pátio, as duas sentaram-se num carro de bois estacionado ali e logo foram cercadas por mulheres e crianças, com as quais passaram a conversar animadamente.

Pouco depois das quatro horas da tarde, começaram a chegar traba-lhadores, vindos do campo, e com eles os dois irmãos de Júlia – Gilton, o mais velho, e Gilberto, o do meio. Após as apresentações, todos ficavam em volta, assentados em tocos de madeira, pedras, pneus ou qualquer coisa que tivesse tal serventia. A visitante, com sua espontaneidade, era o centro das atenções. A certa altura Júlia narrou-lhes o episódio na maternidade, o qual gerou graça e admiração.

– Pois ela andou no meio das vaca e dos bezerro, e ainda brincou com eles – disse Júlia, completando a narrativa.

– Uai...Vai ver que elas respeitou o cavalo – comentou um dos presentes, referindo-se ao cavalo do vaqueiro.

Indagada sobre o episódio, Cristina não soube explicar por que não foi atacada ; admitiu, para desconversar, que devia ter sido mesmo pela presen-ça do cavalo.

O grupo foi se modificando com o passar do tempo, com a saída de umas pessoas e retorno de outras. Os homens saíam para banharem-se em casa ou no poço do córrego do Paulo. Após um certo tempo, restou um pequeno grupo em pé, à sua frente. Entre estes, estava um trabalhador, que fora dos primeiros a chegar, mas não arredara pé, não falara uma única palavra e olhava Cristina o tempo todo. Seu olhar embevecido lembrava o de uma criança para um brinquedo muito desejado.

Por volta das seis horas o grupo se dissolveu e foram todos para suas casas jantar.

– Você viu como que o Juca ficou te olhando? – perguntou Júlia.

– Vi. Ele é tímido, não é? Parece que ele estava admirado com as coisas que eu falava.

– Eu acho que não era só isso não...

Após o jantar, como era de praxe, quase todos retornaram ao pátio. Agora era o período do lazer, de contar os casos, de se relacionarem. Era também a hora de olhar os horizontes e se indagarem sobre as chuvas. Uma nuvem qualquer era motivo de muita especulação. Cristina lá estava e seu contato era tão fácil, que parecia uma velha conhecida de todos.

A noite chegou e foram quase todos para as suas casas. Alguns se réu-niram para jogar baralho. Outros ficaram apenas conversando. Numa das casas alguém tocava violão e cantava músicas sertanejas. Não havia energia elétrica. A iluminação era feita com lampiões a gás e lamparinas a óleo diesel.

Jeremias reuniu-se com a família na sala, como fazia todas as noites, de modo informal, às vezes com a presença de um ou outro trabalhador. As atenções voltaram-se para Cristina. Ficaram sabendo mais sobre sua vida, de seu interesse em fazer umas pesquisas e do seu desejo de conhecer a fa-zenda para tal fim. Inquirida sobre a natureza das pesquisas, ela foi sincera :

– Ainda não sei exatamente. Pode ser sobre água, os córregos e as nas-centes; sobre o ar ; sobre a terra, os seus componentes ou a fertilidade ; pode ser até mesmo sobre lavras de cristais... entende? Primeiro eu gostaria...

Nesse momento, Juca, que não voltara ao pátio após o jantar, chegou acompanhado de outro trabalhador. A entrada dos dois interrompeu a fala de Cristina. A de Juca chamou a atenção. O barulho feito pela botina dele – nhec, nhec, nhec... – denunciava o calçado novo; a roupa, um conjunto de jeans azul, com o desenho de um enorme dragão vermelho, em relevo, nas costas da jaqueta e o cabelo, cuidadosamente penteado e brilhando, indicavam que ele se aprontara com esmero. Sua imagem contrastava com a simplicidade das roupas dos demais. Os dois assentaram-se em cadeiras disponíveis.

Juca, de início, não olhou para ninguém. Com a cabeça levemente inclinada para o lado e para baixo, seu olhar fixou-se num ponto qualquer do as-soalho. O seu semblante sugeria um misto de satisfação e timidez.

– Parece que você vai passear... – disse Júlia para ele, com um leve sorriso irônico.

– Isso é roupa de arrumar emprego na cidade... – disse Gilberto, fazendo coro com a irmã.

– Pra mim é roupa de ir pedir dinheiro emprestado – completou Gilton, em tom ácido e um sorriso de deboche.

Estes comentários imobilizaram ainda mais o homem. Para quebrar o constrangimento, Cristina voltou a falar :

– Como eu estava dizendo, primeiro eu gostaria de conhecer a fazenda. Depois decidir o que fazer, entende?

Ante a informação de que não sabia montar, Jeremias disse-lhe que esta era a primeira coisa a ser cuidada.

– Eu ensino – prontificou-se Júlia. – E mostro também as manga, as lavoura, o gado. Agora, lavra de cristal, só posso mostrar as que tão perto, porque num conheço todas, e num entendo muito do assunto não. Serve assim?

– Está ótimo. Mas pra saber o que vou pesquisar, o ideal é conhecer toda a fazenda, entende?

Jeremias disse que as duas iam precisar da ajuda de Edu, cujo nome era Eduardo, uma espécie de braço direito dele, e mandou chamá-lo. Enquanto o esperavam, a conversa prosseguiu. Indagaram a jovem sobre vários assun-tos. O fato de ela não ter idéia alguma sobre as tais pesquisas foi motivo de estranheza, demonstrada de modo discreto por todos.

Juca permaneceu mudo, mas muito atento. Todas as vezes que Cristina falava, ele a fitava demoradamente, com um misto de enlevo, admiração e encanto. Tal interesse foi notado por todos, mas ninguém fez qualquer co-mentário.

 

Edu era um homem já maduro, de fala mansa, que nascera e vivera a maior parte de sua vida ali. Conhecia as terras mais do que qualquer outro.

– Edu – começou Jeremias, assim que ele chegou –, você vai dar uma assistência pra Júlia e pra moça aí... Ela quer conhecer a fazenda, as lavra. A Júlia vai mostrar as lavoura e as manga. Aí você mostra o resto.

– Conhecer a fazenda toda?! – indagou Edu, surpreso.

– Tem algum problema? – interveio Cristina.

– Ih!... Só de comprimento ela tem duas légua. E tem muitas lavra longe – respondeu ele.

– Mais de noventa por cento num tem proveito, num tem nada pra ver, de acordo? – informou Gilberto.

– Tem muita serra, chapada, campina, tudo longe, né? – entrou Júlia. – Difícil até de chegar; em muitas parte só tem jeito de ir de a cavalo. Tem lugar que nem eu nunca fui.

– Seu Jê – voltou Cristina –, se o senhor não se importar, eu gostaria de ir a todos os lugares.

– Por mim num tem problema não. Precisa é controlar aí com o Edu, por causa do serviço dele. E pode tirar o “seu” na hora de falar comigo.

– O seguinte é este : – começou Edu, de modo muito peculiar, e que Cristina precisou conter-se para não rir – quando der, parte do dia eu saio com vocês e na outra, cuido do meu serviço. Agora, pra fazer o giro das lavra que tão longe precisa de mais de dois dia. Só pra ir na lavra da Raposa, passando pelas outra e as cata que tem no mesmo rumo, é um dia inteiro. Pra ir e voltar na chapada do córrego da Lavra, gasta mais um dia.

– Quando eu era mais nova, eu fui em todos esses lugar – entrou Filó. – Você num vai achar graça nenhuma, Cristina. Além do mais, é tudo igual. Uma manga é igual as outra: capim, mato, cerca... essas coisa... As lavra também: uns monte de areia e cascalho remexido, entulho, pedra pra todo lado, uns buraco... Num tem graça nenhuma. Bobagem ir em todos os lugar.

Ela acha que todas as pessoas enxergam do mesmo jeito...’ pensou Cristina.

– Se vocês não se importam, eu gostaria de ir em todos os lugares – insistiu ela, de forma educada.

– Se precisar, a gente pega e ajuda também – disse Gilton, o irmão mais velho de Júlia.

Decidiram atendê-la e mostrar toda a fazenda.

O assunto, a seguir, girou em torno de cristal. A conversa surgiu a pro-pósito das pedras que haviam na casa, como enfeite, e de alguns pedaços que Cristina vira no pátio. Desfiaram os nomes de mais de uma dezena de lavras existentes na propriedade ; sobre cada uma foi contado pelo menos um caso interessante.

Naquela noite a moça foi dormir mais confortada. Finalmente, ela tinha uma programação a cumprir. Ia conhecer as entranhas dos gerais. Por outro lado, a atitude do Juca gerava-lhe maus pressentimentos ; conversou sobre a questão com Júlia.

– Ele é casado. Tem dois filho, um menino e uma menina – informou Júlia que, também, descreveu a esposa dele, de nome Vilma, de modo que Cris-tina a identificasse e, ao final, arrematou: – Ele tá querendo alguma coisa com você...

A poucos metros dali, na casa em que Juca morava, iniciava-se um silencioso drama.

 

Ruptura

 

V ilma, no leito, procurou aconchegar-se no marido.

– Chega pra lá! – disse-lhe Juca, em tom áspero.

– O que que foi?

– Nada!

Assustada com a reação do marido, a jovem mulher afastou-se. Era a primeira vez que ele a recusava. Isso passaria como um episódio desagradável apenas, não fossem as lembranças que lhe vieram. O marido ficara encantado com a jovem naquela tarde no pátio, o que, de início, não tinha sido nada demais, posto que compartilhara da mesma admiração. Na hora do jantar, ele falara o tempo todo nela, comentando seu jeito e as coisas bonitas que ela dizia, o que também achara normal. Mas estranhou que ele se apron-tasse para ir à casa de Jeremias, fato que nunca ocorrera, e ainda, vestindo sua melhor roupa. Achou excessivo que ele continuasse a falar da moça, com certa euforia, antes de se deitarem. Agora, havia a rejeição. Estes fatos, e o sentimento de mulher sensível, diziam-lhe com clareza : Juca estava gos-tando de Cristina.

Uma onda de sensações confusas percorreu-lhe o corpo : tristeza, pesar, medo, humilhação. Encolhida num canto da cama, junto à parede, a jovem mulher remoía os pensamentos. O sono não vinha. O marido, também inso-ne, mexia-se com freqüência de um lado para outro. De vez em quando, ele levantava-se, ia à cozinha, separada do quarto por uma parede, tomava um pouco de café e voltava. Apenas uma vez, notando que o café terminara, dirigiu-se a ele perguntando se queria que fizesse mais. Ante a resposta afirmativa, ela levantou-se, arrastando o peso daqueles sentimentos, e fez novo café. E assim transcorreu a noite : os dois insones, sem se falarem, mas ambos sabendo muito bem o que se passava.

Mal o dia amanhecera, eles se levantaram. Vilma foi cuidar dos afazeres domésticos e Juca ficou por ali, zanzando, até chegar a hora de ir para o seu trabalho de tratorista. Nas poucas vezes em que se dirigiu à esposa, o fez como se fossem apenas conhecidos, com interesses comuns. Estava selada uma ruptura que Vilma jamais imaginara que pudesse acontecer. Embora a vergonha e a humilhação fossem fortes, a tristeza era maior, pois ela o amava profundamente.

Quando os homens saíram para o trabalho no campo, Júlia foi à casa de Vilma. A expressão facial da mulher e seus movimentos lentos denunciavam todo o drama. Apesar de contida, Vilma mostrou, em poucas palavras, sua amargura.

– Acho que minha vida acabou.

– Dá um tempo que isso passa... Isso é bobera dele – consolou Júlia.

– Acho que não. Sentir isso sem nem ao menos ter sentido o cheiro dela...

Na sua simplicidade e intuição de mulher, Vilma referia-se a essa paixão avassaladora e inexplicável que se apossa de algumas pessoas. Para ela, o amor que surge quando a pessoa nem ao menos sentiu o cheiro da outra, destrói a vida de alguém – no caso, destruía a dela.

 

Adaptação

 

N os dias que se seguiram, Cristina foi desenvolvendo uma rotina. Açor-dava cedo, ao alvorecer, fazia uma caminhada e depois alguns exercícios. Aprendeu a montar rapidamente e ia, às vezes sozinha, às áreas de pasta-gens e plantações. Ficou sabendo que, naquelas paragens, era melhor mon-tar uma mula, ou um burro, do que um cavalo. Ela comprovou através de experiência própria. Nos lugares acidentados e com pedras, eles são mais estáveis e seguros do que o cavalo. Passou a montar, sistematicamente, uma mula de passo muito macio.

Todo final de tarde, participava das conversas no pátio e, como eles, olhava as nuvens, em busca de sinal de chuva. Era uma oportunidade de conhecer as pessoas e aprender muitas coisas. Para as crianças reservava al-guns minutos para contar histórias que inventava na hora e que elas ado-ravam. Nesse horário, todos os dias, invariavelmente, depois do trabalho in-tenso, Jeremias montava um animal e percorria a maternidade para ver as va-cas com crias e as que estavam perto de parir. – Fazer esse passeio é o maior prazer da minha vida – disse ele para Cristina, certa feita.

Após o jantar a jovem visitava uma ou outra casa. Sentia afinidade por Edu e sua mulher. Na casa do Juca era recebida com excessiva solicitude por parte dele e um enorme desconcerto por parte de sua esposa. Mais tarde, juntava-se à família de Jeremias na sala.

Nessas conversas, que eram tradicionais, ela obtinha várias informações sobre a propriedade: a vegetação, os tipos de solo, os cuidados com o gado, as nascentes, as plantações, as lavras de cristal. Era habitual aparecer um ou outro trabalhador. Juca tornara-se uma presença constante, quase uma sombra sua.

Os sentimentos dele para com Cristina eram claramente percebidos por todos. Mas, como é costume no lugar, nesses assuntos ninguém se intromete. Para um povo, como aquele, que se ofende à toa, os assuntos de amor são explosivos. A Cristina não restava alternativa: era tocar sua vida e pronto. Continuava fazendo de conta que nada percebia e o tratava do mesmo modo que aos demais.

O dia-a-dia da jovem, apesar de interessante, devido às novidades e exo-tismo do lugar e a amizade de Júlia, não apresentava nada especial. Ela chegou a questionar-se sobre isso e até a pensar que sua estada ali não tinha qualquer sentido prático e que o episódio da luz azul não passara de um sonho ; os pensamentos imperativos seriam dela mesma, de sua ima-ginação. Por que precisaria estar longe, em região tão pobre, para desem-penhar uma missão, ademais indefinida ? Entretanto, um outro lado seu era mais forte e a mantinha atenta. Ler e informar-se sobre todos os assuntos que diziam respeito às atividades desenvolvidas na fazenda faziam-na sentir-se vigilante, tal como recomendara o homem de Grão Mogol.

 

Começa o Trabalho

 

C ristina, numa manhã, teve um pensamento imperativo :

“Faça análises de solos.”

De início, ela não deu muita importância ao pensamento ; sua conti-nuidade, contudo, indicava-lhe que devia estar ligado à missão. Surgiu depois uma dúvida : as análises seriam relacionadas aos solos, do ponto de vista mi-neral ou agrícola ? Ficou com este, posto que desconhecia análises que pode-ria fazer, visando produção mineral, enquanto que tinha consigo um ótimo livro de química agrícola. Lembrou-se até de ter visto numa loja especia-lizada de Belo Horizonte, enquanto se preparava para a viagem, um conjunto de reagentes apropriados para uso no campo.

Ao certificar-se de que esta era a direção a ser seguida, procurou Júlia e combinou com ela uma ida a Itacambira, para encomendar os apetrechos. Ficou acertada a viagem para o dia seguinte, em animais. Haviam se pás-sado mais de dez dias, desde sua chegada à fazenda e já era tempo, tam-bém, de dar notícias à família. Ficariam três dias lá, tempo necessário para a chegada da encomenda que ela ia fazer.

Durante a viagem, passou por experiências interessantes. Subidas e dês-cidas de morros pedregosos, através de uma trilha feita por animais durante décadas, travessias de pequenos cursos de água que nasciam por ali. Em alguns lugares, por medida de segurança, preferiu descer e caminhar entre pedras, puxando o animal. Numa certa altura, seu coração disparou sem mo-tivo aparente e sensações confusas ocuparam-lhe o corpo.

Comentou o fato com Júlia. Esta pensou que a amiga estivesse passando mal. Cristina chegou a descer da mula, sentar-se numa pedra às margens do córrego do Capim, que nascia nas proximidades, e esperar, apreensiva, passar aquela coisa, como de fato, passou. Ficou sabendo que estavam na divisa da fazenda.

– A divisa aqui é água-vertente – Júlia começou a explicar. – A água da chuva que cai lá em cima – ela apontava o topo de uma elevação, situada a poucos metros, por onde passaram –, corre uma parte pra cá e outra pra lá, né? É a divisa. Pro lado de lá é a fazenda e pro lado de cá é terra de outra pessoa. Onde o morro divide a água da chuva é que é a divisa. Num tem cerca, porque nem precisa: num tem nada de aproveito por aqui, né?

Olhando em volta, Cristina viu que a amiga tinha razão : só pedras, arbus-tos pequenos, solo muito arenoso. Mais abaixo, viu um quadro diferente : a trilha passava por um barranco de areia de uns cinco metros de altura e seguia por uma área também de areia, de uns cem metros de largura, que surgia numa curva de morro e se estendia até desaparecer atrás de outro morro ; do lado oposto, o barranco, também de areia, tinha a mesma altura. Chamou a aten-ção da amiga para aquela paisagem.

– Aqui chama Vargem Grande – informou Júlia. – Por aqui tem uma es-trada cavaleira que vai dar na lavra da Raposa. A lavra é lá – apontava para o sul – no alto daquele morro.

– Lá naquela areia deve ter sido um rio, em tempos pré-históricos – comentou Cristina, voltando à paisagem que estava abaixo.

Enquanto conversavam, a um descuido de Cristina, sua mula soltou-se e saiu em disparada, pela trilha, de volta à fazenda. Júlia montou seu cavalo imediatamente e saiu correndo atrás. Cristina foi até a elevação para ver. No topo, na vertente, seu coração disparou de novo. Sentiu uma emoção com-fusa, suas pernas ficaram tremendo. Lembrou-se de que foi exatamente o que sentiu ao adentrar a fazenda no dia da chegada. Embora tivesse interes-se na perseguição empreendida por Júlia, a jovem, ao sentir-se melhor, caminhou na direção da vertente oposta e percebeu que as sensações se repetiram. Sentada numa pedra, ficou pensando naquela coisa estranha, à espera da amiga.

– É assim mesmo – comentou Júlia, ao chegar, puxando a mula pelo cabresto –, se a gente solta o animal, ele volta pro lugar onde é criado. É só ter cuidado né?...

– Eu senti a coisa de novo. O coração disparou, entende?

– Uai! Será que você tá doente?

– Acho que não. Deve ser o mistério... Um alerta para a missão.

– O que que é isso?

– Nada... Deixa pra lá.

Em Itacambira, hospedaram-se na casa de Edvar. No posto telefônico, Cristina falou com os pais, a tia Luci, Clara e João. A este encomendou um conjunto de apetrechos para análises de solos, com propósitos agrícolas. Orientou-o sobre o lugar onde o encontraria, já em maleta muito prática, acompa-nhada de manual. Pediu-lhe para efetuar o despacho ainda naquele dia ; a encomenda chegaria no ônibus procedente de Montes Claros, na noite do dia seguinte.

Cristina aproveitou sua estada em Itacambira para fazer algumas visitas. Nada de especial aconteceu nesse período. Apenas o encontro com o homem de setenta e cinco anos que vivia com a filha ficara registrado em sua mente.

Ao passar por sua casa, ela o viu na sala que, tradicionalmente, é o cômodo que fica logo na entrada daquelas moradias simples. Assentado, ele informou que a filha saíra por uns momentos. Enquanto Júlia permanecia em pé, junto à porta, a moça entrou para cumprimentá-lo com um aperto de mãos. Indagado sobre como estava, ele respondeu com a voz chorosa e a fala lenta:

– Estou muito chateado. Eu fiz um mal negócio hoje.

– Que mal negócio o senhor fez?

– Foi este sapato aqui. – Ele apontou para os sapatos novos que calçava.

– Mas o que têm eles ? – voltou a jovem, que completou, procurando ani-má-lo: – Eles são muito bonitos e parecem tão bons...

– É por isto que estou chateado. Ele é muito bom e eu vou morrer antes dele acabar. Eu podia ter comprado um sapato mais barato. Tinha feito melhor negócio.

Ao sair, Cristina ficou pensando em como é difícil entender as pés-soas. O exemplo dele era típico : mesmo as coisas boas eram motivo de lamen-tações.

No retorno à fazenda, ao passar pela divisa de águas-vertentes, Cristina sentiu o coração disparar e a mente ficou momentaneamente turva. A repe-tição daquela coisa ao cruzar os limites da fazenda deixou-a intrigada. É muita coincidência... Estas coisas têm um nexo ; não podem estar acon-tecendo assim, sem mais nem menos... OK luz azul : estou atenta e cum-prindo o nosso trato. Começou, assim, a admitir que algo muito especial es-tava ocorrendo com ela.

Jeremias concordou que Cristina usasse uma mesa, no galpão menor onde eram guardadas as ferramentas, para fazer suas análises. Os apetrechos e reagentes que ela recebera, davam resultados bem aproximados e confiáveis. A mesa tornou-se o seu laboratório.

Todos os dias ela aproveitava as caminhadas, a pé ou montada, e recolhia amostras de um determinado tipo de terreno, fazia as análises e anotava os resultados. Num desses dias, ao colher material na manga da Roça Velha, tendo Júlia como companhia, ela entrou em contato, pela primeira vez, com uma lavra de cristal.

Eletricidade dos Cristais

 

– Esta é que é a lavra da Roça Velha – disse-lhe a amiga mostrando uma área de uns cinqüenta metros de largura por uns duzentos de comprimento.

O lugar tinha mesmo a ver com a descrição de Filó. A lavra estendia-se na direção noroeste-sul. Areias e cascalho revirados, pedras de tamanhos variados, incluindo-se blocos enormes, eram vistos espalhados, sem qual-quer ordem ; arbustos, muito mais raros, apareciam também.

– Ali na frente tem um buraco que deu cristal. Vamo lá que eu te mostro.

Próximo ao extremo sul, havia um buraco redondo, em forma de cisterna, com pouco mais de um metro de diâmetro, coberto com paus roliços, colo-cados ali para evitar que reses ou animais caíssem lá dentro. As duas des-montaram e amarraram os animais num arbusto. Tiraram alguns paus para enxergarem o fundo. Não foi possível vê-lo porque era escuro lá embaixo. As paredes visíveis eram arenosas, irregulares e tinham, em alguns pontos, minúsculos cristais que brilhavam com a luz.

– Foi o Gilton que abriu esta cisterna procurando cristal. Foi muito demo-rado, porque esta pedra de areia é muito dura. Olha aqui – Júlia batia o pé no solo arenoso a um metro de distância do buraco ; era como se ela esti-vesse batendo numa rocha. – Mas nas berada, esfarela à toa, olha... – continuou ela voltando à borda do buraco e batendo o pé. – Pra abrir uma cisterna que nem esta, tem de ir cavando nesta dureza toda...

Ela informou ainda que aquele buraco e mais três ali perto tinham sido abertos com o equipamento de mineração e explosivos. No entulho ao lado, Cristina encontrou pedaços de cristal, restos do trabalho, e um outro inteiro, medindo uns três centímetros de comprimento e menos de meio de diâmetro.

– Ele é lindo! – exclamou ela. – A ponta e as faces são perfeitas.

– Uai!... Do jeito que você fala, até parece que você entende do assunto...

– Eu estudei isso lá em Belo Horizonte antes de vir pra cá, entende? Estive algumas vezes com uma pessoa que trabalha no ramo e ela me deu umas aulas práticas. Fiquei sabendo que a região é rica em cristal; por isso me interessei, entende?

– Ah... então tá explicado. O cristal que saiu daqui era bom, bem trans-parente, mas era pouco ; uns duzentos quilo só. E a pedra maior devia ter só umas quatrocentas grama. Os outros três buraco ali na frente num deu nada.

– E aquelas pedras ali, o que são? – apontou para umas pedras leitosas, enormes, que estavam ao lado de um dos entulhos de areia e cascalho.

– Aquelas a gente chama de dente-de-cão. É forma do cristal.

– Forma?

– É... forma. Quando a gente encontra elas, é sinal de que pode ter cristal no fundo. Cada minério tem as suas forma, né? Por exemplo, lá na Macaúba tem um tipo de cascalho que é forma do diamante. Quando eles penera o cascalho e aparece umas pedrinha preta, chamada ferragem, é mais uma forma do diamante. O dente-de-cão é uma forma do cristal, entendeu?

– Então, vendo a forma, a pessoa já sabe mais ou menos o lugar que vai procurar?

– É, uai. Imagina se fosse cavucando de qualquer jeito... Tem de seguir a forma, né?

– A natureza é cheia de sinais... – comentou Cristina. { Leia Quartzo }

 

As duas saíram andando pela lavra. Chegaram aos três buracos abertos na mesma época.

– Estes, aqui, num deu nada – informou Júlia.

Cristina ficou sabendo que Jeremias havia garimpado algumas lavras da fazenda. Ele tentou, sobretudo, atingir camadas mais profundas, uma vez que as partes mais superficiais tinham sido muito exploradas, especialmente durante e após a Segunda Grande Guerra Mundial, por antigos garimpeiros. Naquela época, por falta de equipamentos, eles não iam às camadas profundas do solo.

De volta ao lugar onde ficaram os animais, Cristina convidou Júlia para sentarem-se em uns dentes-de-cão que estavam à sombra de uma árvore. Cristina tirou as botas – aquelas que foram sugeridas por um dos homens que deram informações sobre os gerais – para descansar os pés. E, ao apoiá -los no chão, sentiu um formigamento.Parece que meus pés estão dormentes, pensou. Decidiu apoiá-los nas botas e o formigamento desapareceu. Apoiou-os de novo no chão e o formigamento voltou. Repetiu o movimento algumas vezes.

– O que que é isto? – inquiriu Júlia, ao observar a amiga.

– É uma coisa esquisita. Vou dar umas voltas, descalça.

– Você vai acabar cortando o pé em alguma ponta de pedra aí.

Cristina saiu caminhando e percebeu que o formigamento diminuiu. Então ela caminhou para um lado, depois para o outro e voltou a senti-lo com in-tensidade. Seguiu em frente, corrigindo o curso de vez em quando. Toda vez que sentia o formigamento mais forte, confirmava-se sua impressão de que captava algo especial, o que fazia seu coração disparar de emoção. As passar pelas outras cisternas que Jeremias havia aberto, aquela sensação ficava a distâncias que variavam de cinco a dez metros. Andou mais de cem metros de distância e depois voltou. A meio caminho veio-lhe o pensamento :

“É efeito piezelétrico ”.

Uma cascata de idéias ocupou-lhe a mente excitada. O que sinto é cor-rente elétrica ! Torcidos, pressionados no fundo, os cristais geram poten-ciais elétricos e é isto que estou sentindo... Será mesmo ? Calçada com a bota eu não sentia nada, porque o solado de borracha funciona como isso-lante... Será?! Será?! Aturdida, chamou a amiga, que ficara a observá-la e pe-diu-lhe para tirar os sapatos.

– E então? Sente alguma coisa?

– Não, num sinto nada não. Por quê? Você sente alguma coisa?

– Nada?! Absolutamente nada?

– Na-da! Na-di-nha!...

Cristina, tomada de emoção ainda mais forte, desabou literalmente. O máximo que conseguiu foi ficar assentada ali, com as pernas estendidas e o tronco inclinado para trás e sustentado pelas palmas das mãos apoiadas no solo. Em seguida ela deitou-se. Com os olhos fechados para proteger-se do sol, ela sentiu a sensação em todas as partes do corpo que estavam em contato com o solo.

Algumas lágrimas de alegria escorreram-lhe pelo rosto.

– O que que foi? O que que foi? – perguntou Júlia aflita.

– Nada... nada...

Ante a insistência da amiga, disse que as lágrimas eram devidas à lumi-nosidade do sol.

Ao retornarem, já distantes alguns metros da lavra, Cristina recolheu a amostra de terra que fora buscar para análise. Quem procura, acha – co-meçou a pensar. E às vezes o que se acha é mais precioso do que aquilo que se procurava. pode ser cristal embaixo... Preciso checar. depois vou falar pra eles. Passado o período de emoção, a jovem começou a acreditar que estava diante de algo muito mais sério do que aquele que vinha admitindo.

No caminho de volta refletia: Eu sentir a eletricidade ?... O potencial ele-trico desenvolvido nos eixos elétricos dos cristais é muito baixo... Como explicar eu senti-lo? É fora de nexo, de lógica... A luz azul ! Será ela ? É, é ela !... Não tenho dúvida : é ela !

“É efeito piezoelétrico” – voltou o pensamento. { Leia Efeito Piezoelétrico }

 

À noite, na conversa habitual, Cristina informou que já tinha muitos dados coletados sobre solos, de interesse agrícola ; faltava, porém, analisar camadas mais profundas em alguns lugares. Pediu que Jeremias arrumasse alguém para cavar, de modo a obter amostras de até quatro metros. Falou, por alto, que queria fazer algumas pesquisas com cristais e expressou seu desejo de ir logo conhecer as lavras.

– Ir nas lavra, você combina com o Edu. Agora, furar esses buraco... vou pensar.

Quando o assunto eram os estudos que a jovem fazia sobre solos agrí-colas, Jeremias mostrava pouco interesse e isso estava acontecendo agora novamente. Ele entendia que, depois de tantos anos lidando com a terra, nada tinha a aprender com uma moça que, nesse assunto, estava enga-tinhando.

Cristina estava diante de um fato novo – agora ela precisava, também, esclarecer aquele formigamento. Fazer a mesma observação, em outras lavras, era o caminho mais simples e rápido. Se sentisse nelas a mesma coisa, isso indicaria que aquela sensação tinha a ver com a eletricidade ge-rada por cristais. E acima disso, era o sinal de que ela estava no centro de um processo que transcendia a lógica, um processo que não podia ser expli-cado pelas leis da física, já que ninguém mais captava aqueles impulsos.

 

Bezerro Escondido

 

E du chegou à porta da casa de Jeremias, na manhã do outro dia, com o sol já alto e informou:

– Seu Jê, o seguinte é este : a vaca Pirada escondeu o bezerro. Já pro-curei na manga do Pequizeiro toda e num achei não.

– Chama os menino; aí eles te ajuda – respondeu Jeremias, referindo-se aos filhos.

– O que vem a ser isso? – perguntou Cristina a Filó. Ambas estavam do lado de fora e escutaram a conversa.

– As cria nova, que vão pras manga, passa a maior parte do tempo dei-tada. As vaca leva elas pra uma sombra, lá elas fica deitada. De vez em quando as vaca vão lá, dar de mamar. Às vezes elas esconde as cria numa moita de mato ou de capim, a gente passa e num vê. A vaca Pirada faz isso demais.

Passadas quase duas horas, Edu e os dois rapazes chegaram. Do galpão onde fazia suas análises, Cristina escutou a notícia.

– Pai, a gente procurou a manga toda e num tem nem sinal do bezerro. Eu peguei, fui prum lado, o Gilberto pro outro e o Edu pra outro. O bezerro tá muito bem escondido. Separamo a Pirada das outras vaca, mas ela ficou por lá, despistando – num foi pra onde tá o bezerro de jeito nenhum.

A moça sentiu-se compelida a sair e juntar-se ao grupo. Ela olhou a região onde ficava aquela manga e, mentalmente, viu o bezerro deitado, inclu- sive o lugar onde ele estava, como se aquilo estivesse na sua frente.

– Eu vou buscá-lo – disse ela. Em seguida, dirigiu-se para o Gilberto: – Me empresta essa mula. Os outros dois vêm comigo – completou em tom afirmativo.

– Você buscar ele?... – indagou Edu.

– Buscar aonde? – entrou Gilberto.

– Eu vou buscá-lo – repetiu ela.

– Você vai é perder o caminho de volta... – disse Gilton rindo.

– E ainda vai dar trabalho pra nós – voltou Gilberto.

– Você sabe o endereço, o nome da rua aonde ele tá? – retornou Gilton, arrancando risos.

Júlia veio em seu socorro de Cristina. – Num custa vocês atender ela, né? Vocês já procuraram, num já? Agora deixa ela tentar.

Jeremias concordou com a filha, apenas para ser gentil com a visitante.

Cristina montou a mula. Edu e Gilton a seguiram. Ao chegar à manga, andou por uma trilha, na direção norte. Passaram pelo gado, incluindo-se a vaca Pirada, que continuou pastando como se nada estivesse acontecendo. Pró-xima de uma encosta, a moça apeou, e depois de caminhar uns cinco metros, chegou numa moita formada por capim e um arbusto. Com as duas mãos ela afastou o capim. E lá estava o bezerrinho! – Está aqui – disse ela para os dois que, montados e não acreditando, chegaram perto. Deitado, o animal parecia como que aninhado. Ajudada pelos dois, a moça o tomou nos braços e o levou para a trilha. Colocado de pé, no chão, ele saiu correndo, lépido, e se juntou à mãe, que se encontrava a mais de trinta metros. Os dois homens soltaram gargalhadas de contentamento e admiração.

– Como é que você sabia que ele tava aqui? – perguntou Gilton.

– Eu simplesmente vi.

– Num é possível !... – comentou o rapaz. – Ele tava muito bem escon-dido; eu mesmo peguei, passei por aqui e num vi...

– Eu também passei e num vi – disse Edu.

A jovem convenceu-se que havia mesmo algo de diferente acontecendo com ela. A visão do bezerro escondido foi espetacular... inusitada! pensava. E tem o formigamento... a eletricidade! Como estas coisas se conectam com a missão, com a luz azul?

Aquele episódio foi o assunto do dia, quando retornaram. Jeremias, dês-confiado, sugeriu, longe da moça, que ela pudesse ter ido lá cedo e visto o bezerro.

– Seu Jê, o seguinte é este: essa moça tem um cabedal qualquer. Ela hoje caminhou pra outros lado, lá pra baixo, pros lado do Sarinau... e depois teve aquele trem dela andar no meio das vaca na maternidade...

– Que é esquisito, é – aquiesceu Jeremias.

Mas outro acontecimento incomum estava reservado para aquele dia.

 

Vaca Brava

 

L á pelas três da tarde, um vaqueiro foi até o curral onde Jeremias, Edu e Gilberto medicavam dois touros. Disse que a vaca Laranja havia parido e não o deixava chegar perto para tratar do umbigo da cria. Precisava que um deles fosse até lá ajudá-lo.

– Vaqueiro de meia-tigela... – disse Jeremias, em tom provocativo e brin-cando, ao mesmo tempo. – Precisa de ajuda pra controlar uma vaca ?...

– Eu tentei primeiro pear ela e num consegui. Depois lacei, mas num dei conta de segurar. Ele tá braba demais.

Edu ofereceu-se para ajudá-lo. Quando caminhavam em frente do galpão, Cristina, que pressentira a movimentação, chegou à porta e perguntou-lhes o que se passava. O vaqueiro encarregou-se de explicar.

– Vou com vocês – disse a moça, já caminhando em direção à maternidade.

– De a pé?! – indagou Edu, impressionado, não pela distância, porque a maternidade era logo ali, mas pelo fato daquele gado só respeitar gente montada em animal.

– É... a pé – respondeu com naturalidade.

– O seguinte é este: num responsabilizo por nada que te acontecer não.

– Nem eu – completou o vaqueiro.

De longe, Jeremias observava e, entendendo o que acontecia, gritou:

– Moça, num vai não!... É perigoso...

– Fica tranqüilo – respondeu ela, gritando também. – Vai dar tudo certo.

Convencida de que nada lhe aconteceria, caminhou com firmeza. Ao chegar à maternidade, a jovem apanhou com o vaqueiro o medicamento para ser aplicado e pediu para que ambos ficassem longe e não se aproximassem. Embora apreensivos e fazendo novas advertências, os dois concordaram. Mostraram-lhe qual era o animal. Cristina passou pelas outras vacas e crias e chegou perto da Laranja. Esta esboçou uma reação, mas sossegou quando ouviu a moça:

– Calma Laranja!

Então ela abaixou-se e, de cócoras, tratou do umbigo da cria. Era uma linda bezerrinha. Para completar, acariciou Laranja que, ali ao lado, de cabe-ça baixa, farejava e lambia a cria.

Edu e o vaqueiro se olhavam, apreensivos e perplexos. Não precisavam dizer nada. Comunicavam-se com os olhos. Edu sussurrou: – Eu já falei que essa moça tem um cabedal qualquer...

Uma vez no galpão, Cristina pensou naqueles episódios. A imagem que lhe veio foi de uma cascata. Uma cascata de coisas fora do comum. Teve a impressão de que elas foram programadas. Mas, por quem ? E com que obje-tivo? A única sensação que lhe ocorreu associada aos acontecimentos com as vacas era de poder, de um poder que ela nunca havia experimentado. Assim mesmo ela admitiu que houvesse um fator de natureza física subjacente ; um cheiro sentido pelas vacas, por exemplo, e que as fazia ficar sossegadas. Mas e a eletricidade na lavra de cristal ? E a visão do bezerro escondido? Para estas ela não tinha hipóteses ; eram coisas que não se encaixavam em nada do que ela conhecia e não podiam mesmo ser explicadas numa base lógica.

O pátio fervilhou naquela tarde. Os trabalhadores chegavam da lida e ouviam as novidades. Havia um clima de agitação. Homens, mulheres, crianças, estavam quase todos ali, comentando os episódios. Juca era o mais agitado.

– Ela tem muito poder, tem muito poder – dizia ele seguidamente.

– Oi Cristina, tudo bem? – indagou Júlia, puxando assunto, enquanto a amiga prosseguia com suas análises que, naquele dia, seriam estendidas até mais tarde.

– Tudo bem. E com você?

– Hoje você foi demais...

– Está sendo um dia interessante. Mas eu não posso me desconcentrar do que estou fazendo, entende? Podemos conversar outra hora?

– Claro – respondeu Júlia, resignada, assentando-se num banquinho e prometendo ficar em silêncio.

Ao perceber o interesse da amiga, Cristina chamou-a para ajudar. Ela aceitou prontamente e com certa euforia.

A porta do galpão ficava sempre aberta e, naquela tarde, houve um desfile de pessoas em sua frente, só para ver a moça, como se ela fosse uma novidade. Passavam despistando, como se estivessem indo a algum lugar e lançavam os olhares curiosos lá para dentro. Alguns entraram no galpão com desculpas de que iam pegar alguma coisa, mas na verdade queriam apenas olhá-la de perto. Juca fez isso várias vezes. Cristina já não era apenas a jovem estudada e educada da cidade: era uma espécie de anjo recém-chegado.

As análises ocuparam o tempo das duas jovens até a hora do jantar. Elas se entenderam tão bem que ficou combinado de Júlia tornar-se uma ajudan-te permanente.

Intrigada ainda com os acontecimentos em cascata, a jovem foi, antes de deitar-se, à casa de Edu, para trocar idéias. Disse-lhe que tinha informações de que as vacas reconheciam as crias e estas reconheciam as mães, por meio do cheiro. Perguntou-lhe se, na sua experiência de tantos anos lidando com gado, havia alguma indicação de que as vacas pudessem sentir algum odor, emanado de pessoas, e ficarem sossegadas como ficam com as crias. Edu achou graça e comentou:

– Isso num existe não. Porque o seguinte é este: você tem um cabedal e num sabe qual que é. Esse trem de cheiro num tem não. Só tem o cheiro das criação entre elas lá.

A moça insistiu: – Não pode ser um cheiro que sai do meu corpo e que tem efeito sobre as vacas?

– Não, num tem jeito não. Se tivesse eu já tinha escutado falar.

A jovem falou então do bezerro escondido e que o episódio a deixara intrigada também. Edu explicou, com a maior naturalidade, que isso também era parte do poder dela. Para confirmar, conduziu-a à porta da cozinha, que dava para o pomar, mostrou a silhueta da cadeia de montanhas ao fundo, desenhada pelo céu estrelado, e disse-lhe: – Lá no alto tem a lavra do Boi Morto. Fala como que ela é. – A moça não “viu” nada.

– Tá vendo? Por que o seguinte é este : o cabedal num depende da pés-soa querer não. E você tem ele com borra. É por isto que você num sabe como é que é a lavra lá.

Cristina sentiu-se como uma mensageira. As coisas se desenrolavam através dela, mas não eram produzidas por ela. Entretanto, tudo aquilo a afetava muito. E foi inevitável interligar, de modo consistente, todos aqueles fatos com os motivos que a levaram àquele lugar. Entretanto ela se indagava que ligações poderiam existir entre aqueles fatos e possíveis revelações sobre o ser humano.

 



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Capítulo 1 - O Número Quarenta na Bíblia

Capítulo 2 - Missão Desconhecida

Capítulo 4 - As Entranhas dos Gerais

Capítulo 5 - Sonhos e Apreensões

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