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Capítulo 4 – As Entranhas dos Gerais
Primeiros Resultados
N a reunião da noite seguinte, Cristina apresentou os resultados das aná-lises feitas até então, em solos de diferentes áreas da fazenda . Explicou que os solos agrícolas, em qualquer parte do mundo, são uma mistura de mine-rais e matéria orgânica e os detalhou para eles . Começou pelas terras fér-teis. Informou os níveis dos diferentes minerais e explicou o que tudo aquilo significava.
– Isto quer dizer: precisa de calcário e adubo – interrompeu Jeremias, com um tom de voz depreciativo e que sugeria nada daquilo ser novidade para ele.
– Isso é apenas o começo – respondeu ela . – O solo é como uma des-pensa ou qualquer outro lugar da casa onde a gente guarda os alimentos, entende? Todo dia a gente vai lá e tira um pouco . De vez em quando é pre-ciso repor, não é?
A conversa se concentrou nesse problema e no elevado custo do transporte dos insumos, devido ao trecho ruim da estrada e, enquanto falavam, um trabalhador entrou. Na primeira pausa, ele disse:
– Seu Jê, o Juca mandou falar que num vai trabalhar amanhã não . A Vil-ma tá falando que vai embora .
As pessoas se entreolharam. Elas sabiam o que era . Cristina sentiu uma onda de medo . Júlia levantou-se e disse que ia conversar com Vilma, no que foi acompanhada pela mãe . O interesse das duas se prendia tão-somente ao fato de que Juca era um homem trabalhador e de ser difícil arrumar subs-tituto à altura, dado as condições de isolamento da fazenda .
Após um breve tempo de acomodação, o grupo retomou o assunto da estrada . Alguns minutos depois mãe e filha voltaram. Filó informou, em tom tranüilizador, que o problema estava contornado e que Juca iria trabalha r no outro dia . Júlia, de passagem, fez um sinal para Cristina e ambas foram para o quarto .
– A Vilma falou – começou Júlia, quase sussurrando – que tá querendo ir embora porque já num tá güentando o pouco caso do Juca. Reclamou que ele tá enjeitando ela desde o dia que você chegou e que ele só fala em você... o tempo todo...
– Eu não imaginava que a coisa estava tão séria ... influindo no leito com-jugal!... – comentou Cristina, em tom de lamento .
– Eu combinei dela esperar um pouco e da gente conversar amanhã. Vamo voltar pra sala. Na hora de dormir eu te explico mais, tá?
Ambas se levantaram ao mesmo tempo. Junto à porta, Júlia, segurando a lamparina, virou-se para a amiga e disse:
– Ah! Tem mais uma coisa: a Vilma falou que tá sentindo um frio por dentro...
Por um momento as duas se olharam. Cristina sabia que este era o sinal da tristeza do amor não correspondido, da falta que não é suprida por nada . Com o semblante contrito, ela pegou a lamparina das mãos da amiga e, depois que esta abriu a porta e saiu, sentou-se na cama, dando-se um tem-po para que passasse aquele pesar .
Jeremias indagou sobre os outros resultados das análises.
– A parte mais preocupante nas terras férteis é a grande perda de argi-las, entende? – retomou Cristina, na sala, aparentemente refeita .
– O que que vem a ser isso? – perguntou Gilton.
– As argilas estão indo embora com a erosão – continuou ela . – E isso acontece principalmente nas partes com declives, que são maioria aqui . Se não se fizer algo, com o passar do tempo, quase todas essas terras ficarão estéreis. As argilas são o núcleo da vida . São as partes miúdas da terra, o pó, que armazenam os nutrientes das plantas . Elas são muito valiosas para se perderem assim, por falta de cuidado .
– Uai... Pra gente aqui, argila é um barro – voltou o rapaz.
– É, tem um barro chamado argila . Mas ele é feito de uma terra que tem grande quantidade dessas tais partes miúdas, chamadas argilas, entende? { Leia O Solo Agrícola }
Em seguida Cristina fez uma exposição sobre as chapadas . Informou-os que a situação delas era crítica . Quase tudo estava próximo de zero : nutri-entes minerais, argila, matéria orgânica . O máximo de argila que encontrou foi cinco por cento, em contraposição a algumas terras de cultura que, num lugar, chegou a mais de quarenta por cento .
– Mas, as chapada, a gente nem conta – interveio Gilton.
– Mas elas devem ser incorporadas à produção – respondeu Cristina.
A moça informou também que a capacidade de produção das terras de cultura estava em declínio devido à perda de argilas e de nutrientes através das enxurradas.
– Eu tô ficando até meio sem jeito com essas coisa que você tá falando – disse Jeremias, com visível desconforto. – Eu mal dou conta de pôr um pouco de adubo nas terra de cultura e aí você fala que tem coisa pior: elas pode virar num sei o quê!...
– Deserto! – exclamou Cristina.
– Pois então. Aí você ainda fala nessa história de chapada produzir?... Me desculpa, você tá sonhando. De mais a mais, tudo custa dinheiro.
– Talvez haja um meio de contornar a questão do dinheiro, entende?
– Qual?! Qual?! – indagou o homem, com ar de descrença.
– Só posso responder, com certeza, dentro de uns quatro dias . Antes, preciso colher outras amostras, a mais de três metros de profundidade, em-tende? Vou precisar de gente pra isso, como te falei. Mas posso quase te garantir que existe um meio de arranjar dinheiro . E vou começar a conhecer as lavras .
– O Edu fica por sua conta os quatro dia. Pra cavar os buraco, um dos menino ajuda – disse Jeremias um pouco animado com a perspectiva acenada pela moça, embora ela não tivesse explicado como ia resolver o problema do dinheiro.
– Eu vou, de acordo? – interveio Gilberto prontamente.
Os quatro dias era o prazo que ela calculava ser necessário para ter certeza de que o formigamento dava indicações de jazidas de cristal. Se isso se confirmasse, ela imaginava, poderiam tirá-lo e, com o dinheiro obtido com a venda, fazer os investimentos no solo.
– Estive com a Júlia na lavra da Roça Velha. Queria descer naquela cisterna que deu cristal, entende?
– Fala com o Edu e aí ele arranja tudo – respondeu Jeremias.
Cristina via a possibilidade de estabelecer uma relação entre os sinais que recebia da presença de cristais e a recuperação daqueles solos, sobretudo das chapadas arenosas. Ela não sabia como, mas tinha esse pressentimento. E surgia, agora, a chance de verificar, nas entranhas da terra, lá no fundo de uma cisterna, aquela sensação de formigamento, antes mesmo de ver como seria nas outras lavras.
No quarto, na hora de dormir, as duas amigas voltaram ao assunto do Juca e sua mulher. Júlia explicou que ela e a mãe conversaram com Vilma num canto do pátio e convenceram-na a ficar. O principal argumento foi que Cristina não tardaria ir embora e, então, as coisas voltariam ao normal com Juca. Júlia e Vilma ainda combinaram conversar mais sobre o assunto no dia seguinte.
As Entranhas dos Gerais
N o outro dia, os três, Edu, Gilberto e Cristina, saíram bem cedo, de ca-mionete, com a tralha apropriada . A jovem estava risonha enquanto se diri-giam à lavra . Sua alegria se justificava: ela ia checar lá embaixo, no ventre daquelas terras brutas, lá onde a natureza despejou o cristal, a sensação sentida na superfície .
Os dois homens tiraram a madeira que cobria a entrada da cisterna e prepararam um modo de descer. Fincaram dois paus com forquilha – um de cada lado. Colocaram um terceiro apoiado e amarrado nas forquilhas, de modo que ficasse atravessado sobre o meio da cisterna e a um metro e meio de altura. Nesse travessão amarraram uma carretilha grande. Por ela passaram uma corda grossa, com mais de vinte metros de comprimento, que tinha, numa das extremidades, um vergalhão em formato de gancho.
– Vou descer primeiro pra dar uma espiada, de acordo? – disse Gilberto. – Na certa lá tem entulho de enxorrada. Vou ver também se num tem algum bicho – cobra, escorpião... de acordo?
O rapaz desceu apoiando-se em saliências da parede, no que era faci-litado por ter braços e pernas longos . Cristina e Edu acompanhavam do lado de fora . Antes de chegar embaixo, ele acendeu a lanterna e examinou. Devia estar, segundo Edu, a uns nove metros de profundidade .
– Tá tudo bem – gritou ele, instantes depois . – Só tem um pouco de en-tulho. Desce o balde com a enxada e a pá .
Edu apanhou um balde, pendurou-o ao gancho, colocou as duas ferra-mentas, ambas de cabos curtos, dentro dele, laçando-as na corda, para que não se soltassem, e o desceu. O entulho foi recolhido em algumas operações de subida e descida do balde . O rapaz subiu tal como descera.
– Agora você pode descer – disse Gilberto para Cristina. – Nós vamo amarrar você e descer igual desce o balde, de acordo ?
– Mas como?
– O seguinte é este: – começou Edu, segurando a corda e o gancho – você passa a corda em volta, de baixo da popa assim – ele falava e fazia em si mesmo para ela compreender. – Depois trava a corda com o gancho, fica sentada na corda, assim... e segura na parte de riba da corda, assim... aí nós desce você.
A jovem seguiu a orientação e eles começaram a descê-la lentamente . No meio do caminho ela se deu conta de que sua vida estava nas mãos daqueles homens . Se resolvessem largar a corda, ela simplesmente desabaria. Uma onda de medo percorreu-lhe o corpo . Recuperou-se rápido ao pensar que nada podia fazer naquele momento, senão confiar . Quase no final da descida Che-gou a sentir um leve prazer . ‘ Interessante... pensou ela . Eu nunca tinha sem-tido isto . É uma sensação agradável esta de confiar totalmente em alguém, confiar a própria vida ...’ Uma vez lá embaixo ela soltou o gancho, liberou a corda e avisou que podiam recolhê-la. De novo a sensação de estar confiando a vida . ‘Poderiam ir embora e me deixar aqui !... Poderiam, até, me enterrar viva !... – Nova onda de medo . – Bobagem ...’
O próximo foi Edu, que se amarrou com o gancho da forma apropriada e, ao mesmo tempo, pendurou-se na outra parte da corda, após a carretilha, de sorte que ele ia descendo à medida que afrouxava as mãos . Cristina, seguin-do orientação deles, se protegia, numa saliência da rocha, de eventuais que- das de barrancos . Logo após desceu Gilberto, à sua maneira, apoiando-se nas paredes . Somente então a moça pôde examinar o local .
Achavam-se no centro e fundo de uma rocha aparentemente arredon-dada, com mais ou menos um metro e meio de diâmetro, que parecia esten-der-se na direção norte-sul. A cor era cinza-claro em algumas partes e cinza-escuro em outras . Brilhava com a luz da lanterna . Aqui e ali viam-se saliên-cias de cristais curtos emergidos da rocha, como se apenas as pontas tives-sem crescido. Numa cavidade, no interior da rocha, do lado norte, que era uma extensão horizontal do fundo da cisterna, onde eram obrigados a ficar de cócoras, Edu começou a explicar .
– O seguinte é este : depois que furaro este emburrado, no fundo da cis-terna, tinha uma panelinha ...
– Emburrado? panelinha? o que são essas coisas? – interrompeu a jovem.
– O seguinte é este: emburrado é a rocha que tem cristal dentro, é a veia artéria do cristal; panelinha é pouco cristal junto.
– Como que foi quando chegaram na rocha? – voltou ela.
Edu continuou explicando . Quando a cisterna chegou no emburrado, ele era liso por fora . Fizeram percussão com uma alavanca, uma haste de aço de uns dois metros de comprimento e uns três centímetros de diâmetro, com uma extremidade achatada para cortar e a outra afilada para furar . O choque da ponta afilada com a rocha produziu um som grave, abafado, sugestivo de cavidade . Romperam a superfície e depararam-se com cristais no seu interior . Uma parte estava solta e repousava no fundo da rocha, e outra parte ainda achava-se pregada nas paredes .
– E este outro oco aqui dentro da rocha, o que é? – indagou a moça, refe-rindo-se ao lugar onde se achavam, de cócoras, no lado norte, cercados por uma rocha vítrea de cor cinza escuro .
– Depois de tirar o cristal, eles tentaro furar um túnel no em-burrado pra ver se encontrava algum caldeirão na frente – respondeu Edu . – “ Caldeirão ?”, indagou ela . Edu prosseguiu: – Caldeirão é muito cristal junto . Mas seu Jê mandou parar o serviço porque tava ficando muito caro .
Gilton, que comandava a frente de serviço, ficou inconsolável na ocasião, porque acreditava que devia haver uma grande concentração de cristais por perto . Ele tinha razões para pensar isso . Aquele emburrado era tão Cris-talizado que seus fragmentos produziam lascas de segunda, isto é, pedaços com transparência superior a 50%.
Está na hora do teste – pensou a moça.
Ela foi para o lado oposto, sentou-se numa saliência da própria rocha, tirou as botas e apoiou os pés no chão ... e aconteceu! Ela sentiu o formi-gamento. Não só nos pés, mas em quase todo o corpo . Era leve, mas nítido . Os dois, que acompanhavam aquele estranho ritual foram, a pedido de Cris-tina, para aquela extremidade sul, enquanto ela caminhava para a saliência ao norte . Ao chegar lá, de cócoras, o formi-gamento aumentou sensível-mente e foi sentido em todo o corpo quando ela encostou as costas na rocha vítrea .
– Nós vamos tirar muito cristal por aqui – disse ela em tom profético, ao mesmo tempo em que tocava a rocha com as mãos, em movimentos rápidos .
‘É muita evidência !... muita ! muita ! muita !...’ pensava ela excitada; e não se contendo, disse: – Sinto o potencial elétrico do cristal por aqui afora tudo .
– Que que é isto? – indagou Gilberto.
– Eu sinto um formigamento da eletricidade do cristal.
Os dois não entenderam aquilo mas, para ela, havia se dissipado o resto de dúvida que tinha com respeito ao fenômeno . A certeza fez aparecer uma intensa excitação mental que, por sua vez, gerou uma saraivada de pergun-tas enquanto retornavam para fora . Primeiro saiu Gilberto ao seu modo; depois Edu, puxando a corda e erguendo progressivamente o corpo, com movimento inverso ao da descida e, por fim, Cristina, içada pelos dois . Aten-dendo-a, Edu e Gilberto iam respondendo.
– Por aqui na fazenda dá ele de outras cores? – quis ela saber.
– Dá – respondeu Edu . – Só num dá o rosa . Nem o roxo, que é a ame-tista. Mas citrino, por inxemplo, que é amarelinho, já deu com borra .
– Onde deu citrino? – prosseguiu ela.
– Na lavra do Couro Queimado e na do Atoleiro . Daqui dá pra ver a do Atoleiro . É aquela lá – disse ele apontando para uma encosta na direção do nascente, distante uns quinhentos metros .
Satisfeita e intimamente exultante, a moça retornou para o carro . Com respeito ao formigamento, ela tinha feito o teste que faltava. Restava apenas a prova definitiva : encontrar cristal . Dali seguiram para a manga do Capim, que ficava perto, ao norte, e depois para a do Moinho, que ficava distante e ao sul . Retiraram amostras de solo em vários lugares visando a produção agrícola, inclusive nas encostas, e a profundidades variáveis, chegando a quatro metros . Estimulada pelas descobertas e pelas novas perspectivas, Cristina fez trabalho braçal frenético nessas coletas . Ela percebeu que lidava agora com dois tipos de fenômenos : a esterilidade dos solos e o mistério do formigamento que começava a se desvendar . Eram duas coisas distintas e que a arrebatavam. Na tarde daquele dia não teve a ajuda de Júlia que fora dar um passeio com Vilma, às margens do córrego do Paulo, para terem a conversa combinada.
{ Leia Cristal de Quartzo }
A Dor do Amor Perdido
Júlia resolveu levar a mãe para o encontro com Vilma. As três assen-taram-se às margens do córrego, próximo à cascata . A jovem mulher, com semblante abatido, começou dizendo que não entendia o que se passava com o marido .
– A Cristina num tem culpa, né? – observou Júlia.
– Eu sei – respondeu a mulher . – Ocê sabe que eu e o Juca, a gente sem-pre viveu bem . Agora ele tá com isso ...
– Isso passa; a Cristina vai voltar pra casa... – consolou Júlia.
– Mas parece que ele num pensa nisso não.
– Você sabe que a Cristina é muito séria, muito direita, né? E tem namo-rado.
– Eu sei. Mas parece que ele num pensa nisso também não.
– É complicado... – observou Júlia. – A pessoa num ver essas coisa... É muita bobera.
– Num sei o que que ele viu nela – continuou a mulher. – Começou no dia que ela chegou... Eu nunca vou esquecer aquela tarde... aquele jeito dele olhar ela.
– Eu acho que é pura bestage dele.
Vilma relatou sua vida harmoniosa com Juca desde o tempo que come-çaram a namorar, sublinhando o quanto gostava dele. Indagada se achava que fora correspondida na mesma proporção, respondeu:
– Eu jurava... Tem mais de cinco ano de casamento. Depois que a gente come mais de um saco de sal junto, dá pra conhecer a pessoa. Eu jurava...
Na sua linguagem simples e rude, aquela jovem mulher entendia que só o tempo podia levar uma pessoa a conhecer os sentimentos da outra . A imagem de duas pessoas consumindo juntas cinqüenta quilos de sal simboli-zava esse tempo . E ela constatava seu engano – o tempo não era garantia .
– Eu também achava que vocês vivia bem, nesse tempo que vocês tão aqui na fazenda – comentou Filó.
– E vivia mesmo. Agora que ele tá me injeitando, tô vendo que o tanto que eu gostava era mais ainda. Gostava não, gosto.
– Ele continua te injeitando do mesmo jeito? – voltou Júlia.
– Continua. Tô morrendo de vergonha... e de tristeza.
– Mas ninguém sabe o que que tá acontecendo com vocês dentro de casa, né? Só eu, a mãe e a Cristina... – Júlia continuava tentando confortar.
– Nem precisa... A vergonha é por dentro. Fico achando que num tava tão bão pra ele...
– E pra você? – voltou Filó.
– Nunca conheci outro home, nem tive vontade. Pra mim tava mais que ótimo. Num sei o que que é pior: se é a vergonha ou a tristeza...
– Larga isso pra lá! – retornou Júlia. – Você tá se importando demais com ele. Tem muito home no mundo. Você arranja outro...
– Mas que nem ele, num tem não. E num é fácil assim não, largar pra lá!... – Faz uma pausa e retorna: – Num sei o que que ele viu nela. Tá certo: ela é estudada, fala bonito... Mas o resto nós é igual. A cor dela é igual a minha, o cabelo é igual. Será que ele num vê que nós é igual?
– Home tem essas bestage... – comentou Filó.
– Tá certo: ela é bem cuidada, e eu fico esfolando a barriga no fogão e estragando as mão no tanque, lavando roupa...
– Home num dá valor pra esses trem não – disse Filó, cortando-a.
– Num dá mesmo não, tô cabando de crer. Mas ele já viu outras moça e num ficou com essa bestage. Parece feitiço... Num vê que flor no jardim dos outro a gente só pode olhar, sem ficar com ela? Que no jardim da gente pode num ter rosa, mas ter outras flor até sem espinho? Se tivesse jeito de dizer pra ele pra voltar pra mim...
– Eu falo! – exclamou Júlia, com certa animação.
– Não, num é esse jeito de falar falando, não. É falar pro coração dele...
– Às vezes a Júlia falando, o coração dele sente – argumentou Filó.
– Quem dera!... O coração, quando tá fechado, num escuta; nem em-xerga, tô cabando de crer . É por isso que eu acho que minha vida acabou. Com a pessoa enfeitiçada num tem jeito não ...
– Essa bestage pode fazer ele ficar fraco da idéia... – comentou Filó.
– Eu fico triste com a alegria dele e com dó também. Parece que ele esqueceu da vida, parece que ele tá sonhando, coitado...
– Ele tá normal com as criança, num tá? – voltou Filó.
– Tá até demais. Ele já era carinhoso com elas, agora tá mais ainda.
– E com você, ele tá te maltratando? – Filó continuou.
– Não. Me trata bem, até melhor que antes. Mas o que que adianta? Eu quero o meu marido; amigo, não.
– Se ele te procurasse na cama, tava resolvido? – indagou Júlia.
– Não . Sem o coração, num adianta nada – respondeu Vilma. – Acho que vou morrer de paixão ... – Mãe e filha eram incapazes de entender os sen-timentos daquela jovem mulher . Elas achavam que a ligação entre duas pés-soas se dava apenas por coisas periféricas, por um jogo de interesses secun-dários ou por sexo . – Tá tão ruim que eu resolvi botar uma esteira no chão do quarto das criança e dormir lá .
– Num faz isso não ! – entrou Filó, elevando a voz, em tom de repro-vação. – A gente tem de ficar é na cama, junto . Sem querer, ou fazen-do de conta que é sem querer, um encosta no outro, pode ser até o pé ... e aí o problema que tinha, acaba. Porque sempre tem algum problema, e se você fica no outro quarto, fica mais difícil o conserto . Volta a dormir na cama com ele – concluiu ela em tom imperativo .
– Mas você num sabe como que é ruim ser injeitada...
– É, num sei mesmo não . Num sei o que que eu ia fazer se tivesse no seu lugar . Mas um dos dois tem de ceder um pouco, senão casa-mento nenhum dura . Já pensou, por um problema qualquer, um vai prum lado, o outro pra outro ? O mais forte, da hora, tem de ceder ...
– Mas eu num tô güentando nem parar em pé...
– Num é isso não... Você tá sofrendo, mas tá pensando direitinho. Você pode güentar mais do que ele...
– Sei não... Tem hora que eu tenho vontade de morrer...
– O que é isso Vilma?! Deixa de ser boba! – entrou Júlia – Você tem as criança!...
– Isso é outra coisa. Vou criar elas. Mas viver com tanto amor pra dar pro Juca e num poder, é igual morrer.
– Você arranja outro home – voltou a insistir Júlia.
Vilma ficou calada. Definitivamente seus sentimentos não eram entendidos. Fez um último esforço:
– É uma coisa muito triste... É uma dor que fica o tempo todo e que parece que num vai acabar nunca.
– Mas pensa: quando a Cristina for embora e ele parar de ver ela, essa bestage vai acabar – retornou Filó argumentando. – O gosto que ele tinha por você vai voltar. Ela aqui, ele vendo ela todo dia... quando ele parar de ver ela, isso vai acabar, você vai ver.
– Acho melhor eu ir com as criança pra casa do pai; ao menos num fico vendo ele babando quando vê ela...
– Vai não boba. A Cristina vai embora logo... – disse Filó.
– Que dia que ela vai? – indagou Vilma.
– Eu num sei – entrou Júlia. – Nem ela sabe. Mas ela veio pra ficar só uns tempo, né? Vocês podia mudar pra uma das casas dos retiro. Do Buriti, por exemplo. Lá é bonito, tem pomar... Eu falo com o pai. A gente dá um jeito, muda o serviço dele pra vaqueiro e leva um gado pra lá, pra ele olhar; ele entende de gado também, né? Aí, ele ficando por lá, acaba esquecendo...
– Eu acho a idéia ótima – disse Filó.
A jovem mulher ficou pensativa, enquanto as duas permaneceram em silêncio, aguardando. Após algum tempo ela disse: – Se seu Jê concordar... e o Juca também, às vezes dá pra esperar.
Vilma mostrou, assim, que era capaz de perdoar, embora o verbo não fizesse parte de seu vocabulário . Estava disposta ao sacrifício de ficar moran-do numa parte da fazenda onde não teria convívio com os outros, para recu-perar o amor de Juca, o amor que ela sempre tinha julgado existir .
– Então eu vou falar com o pai.
– Eu falo também, se precisar – emendou Filó.
– Eu queria te falar uma coisa – voltou Júlia para Vilma –, a Cristina tá muito chateada com a situação.
– Eu num tô com raiva dela não . Ela num tem culpa . Quando ocê for falar com seu Jê, ocê podia num falar tudo . Ele sabe do poblema, mas num sabe tudo e nem carece saber . Num carece os outros, tam-bém não .
– Pode deixar. Confia ne mim – respondeu Júlia. – Até pra Cristina vou falar por alto. Pros outro, num vou falar nada.
Ao sair daquele encontro, Júlia foi direto à procura do pai que, àquela hora, achava-se na lida do campo . A sós com ele, falou o suficiente para jus-tificar o pedido . Inicialmente Jeremias resistiu. Explicou que, dentro da pro-gramação do manejo do gado e rotação das pastagens, o Buriti deveria ser ocupado na segunda quinzena de outubro . Mas Júlia insistiu tanto que ele acabou cedendo e concluindo que uma mudança no programa não traria maiores transtornos . O grande problema seria colocar outro no trator, mas acabou convencido de que poderia contorná-lo também .
No fim da tarde, ao voltar do campo, Jeremias chamou Juca à sua casa.
– Quero mudar você de serviço.
– Tô pronto pra seguir as ordem.
– Você vai parar com o trator e, aí, vai lidar com gado.
– Uai!... ocê num tá gostando do meu serviço de tratorista não?
– O caso num é este não. Quero fazer uma mudança.
– Mas tem muito tempo que eu num mexo com gado.
– Mas essas coisa a gente num esquece não. Tem mais uma coisa: vou levar um gado pro Buriti e aí você vai pra lá.
Juca olhou Jeremias com semblante assustado. Ficou alguns segundos calado, pensativo. Depois indagou : – Com família e tudo?
– É. Vai de mudança.
Juca ensaiou uma resistência: – Se ocê num tá sastifeito com meu serviço, é só falar: eu vou se embora.
– Eu num falei que num tô satisfeito com seu serviço. Falei que quero fazer uma mudança.
– Mas o Buriti fica fora de jeito, é meio longe...
Ante o silêncio de Jeremias e sua expressão de não se importar com aquele argumento, Juca ficou claramente aflito e fez uma ameaça: – Acho melhor eu ir se embora.
Jeremias continuou em silêncio, indiferente, como se a dizer que tal deci-são seria do próprio Juca.
Os dois permaneceram calados algum tempo. De um lado, Jeremias, frio, tinha a expressão de decisão tomada de forma irrevogável; era como se dissesse: “É pegar ou largar”. De outro lado, Juca, inquieto, olhava, ora para o chão, ora para Jeremias; era um olhar de súplica, que não encontrava qualquer eco. Jeremias resolveu forçar a decisão:
– Tá na hora de ir na maternidade – ele referia-se à volta que dava a ca-valo, todo fim de tarde, para inspecionar as vacas em véspera de parir ou que estavam com crias novas .
Juca, mais inquieto ainda, respondeu, quase gaguejando: – Tá... Tá bem... Eu vou. Mas a família podia ficar aqui...
– Não, tem de ir de mudança – respondeu Jeremias, percebendo que ele tentava uma última manobra para ficar por perto .
– Tá bem... – respondeu Juca, com voz desconsolada. – Vou que dia?
– Amanhã cedo. Leva a mudança na carreta. Aí o Edu pega, traz o trator.
Juca retirou-se com semblante acabrunhado . No dia seguinte fizeram a mudança de acordo com os planos .
Mapa das Entranhas dos Gerais
N o primeiro intervalo que teve durante os procedimentos analíticos, Cristina voltou à Roça Velha com o Edu . Seu objetivo era o de fazer o mapa de alguma expressiva concentração de cristal .
No extremo sul ela informou: – Edu, eu vou caminhar na direção do comprimento da lavra, entende? Vou fazer uns ziguezagues. Não estranha. É que acho que eu fico sabendo onde tem cristal, ficando descalça... pra sentir o formigamento, entende?
– Você sentir lá embaixo, pisando no emburrado, já é difícil de acre-ditar... mas aqui em cima ?... – Após um momento de perplexidade com a informação, o homem sugeriu: – Então eu vou na frente . Tem uns lugar que já cresceu mato . Aí eu corto pra você passar .
– Está bem. Mas antes, vamos esticar esta trena até aquela árvore. Preciso saber o ponto exato do começo, entende?
A seguir ela começou a caminhar descalça, fazer anotações e sinalizar com x, em cores diversas, a intensidade e distribuição do formigamento. Tomava, como referência, árvores e afloramentos de quartzo leitoso, para fazer as medidas. Percebeu que se formava um trajeto levemente sinuoso, ora na direção norte, ora na noroeste, da largura de uma estrada cavaleira. De tempos a tempos, era como se a trilha se ampliasse, formando círculos e semicírculos de tamanhos variáveis.
Na cabeceira da lavra, distante mais ou menos duzentos metros do início, ela percebeu que a sensação não terminava como era esperado. Continuou andando numa área de arbustos, os quais eram cortados por Edu. Passou por pequenas catas (escavações superficiais), atravessou uma estrada na direção norte, tornou a voltar para a área de arbustos e catas e retomou a direção noroeste. Chegou, por fim, num morrote, onde havia sinais de muito trabalho de garimpo; caminhou nele em várias direções.
– Aqui é a lavra da Rocha – informou Edu.
– Mas ela é a mesma da Roça Velha. Apenas ocorre uma certa dispersão após a cabeceira, entende? pra depois voltar a se concentrar aqui. Isto aqui dá uns trinta metros de largura por uns cinqüenta de comprimento, não dá?
– Mais ou meno. Você acha que tem cristal em tudo isso, desde lá do começo da Roça Velha?
– Emburrado com algum cristal eu quase garanto. Agora tem uns lugares que parecem ter panelas e caldeirões, entende?
– Ave!... Cristina, que você tem um cabedal, você tem!... Agora, se você sabe onde tá o cristal, aí eu nem sei... Aí eu digo que você num é deste mundo não.
– Todo mundo tem sensibilidade para alguma coisa ... – disse ela, ten-tando minimizar a importância que ele dava. E continuou: – Olha, tem muito dente-de-cão por aqui ... e de tamanhos descomunais . Mas o veio não con-tinua para a frente . Ele se divide. Naquela parte mais baixa deste morrote ele segue naquela direção, entende? – apontou na direção do poente .
– Pra lá fica a lavra da Samambaia – informou ele. – Tá vendo aquele pelado lá no alto da montanha? É lá.
– A outra ponta do veio seguiu naquela direção – ela apontou na direção norte. – Estou vendo que pra lá tem mais morrotes e muitas rochas.
– É. Mas lá no meio delas é que tem a lavra do Camilo. Do lado que ele tirou cristal adoidado tem um emburrado no meio da rocha, rente do chão, igual aquele do fundo da cisterna da Roça Velha.
Naquele dia Cristina trabalhou intensamente nas análises e na ela-boração de um dos mapas da lavra . Só parou na hora do jantar, durante o qual comentou de leve :
– Estou impressionada com o tanto de cristal que tem por aqui.
– O problema é encontrar ele, num é Jê? – disse Filó, ao mesmo tempo em que olhava para o marido, como se duvidasse do que a jovem estava dizendo.
– Que tem, tem, mas achar ele é que são elas – reforçou Gilton.
Cristina sentia-se tão convicta de estar no caminho certo, que agora ela raciocinava sobre solos, ora do ponto de vista de plantas, ora de minério . Ela via, através da imaginação, como as coisas se ordenavam nas entranhas daquelas terras brutas. E quando pensava nas chapadas e campinas, era apos - sada de um intenso inconformismo; era-lhe inadmissível sua quase esterilidade .
Multiplicação do Solo
C ristina, após o jantar, voltou para o laboratório, onde ficou até tarde da noite, carregando, desta feita, o inconformismo com a quantidade de solos estéreis que havia ali e no mundo . Além deles, incomodavam-na também os solos férteis que iam diminuindo a capacidade de armazena r nutrientes e, por-tanto, reduzindo a produção com o passar dos anos . Ela achava que podia fazer alguma coisa . Um pensamento passou a ocupar-lhe a mente com insis-tência:
“Os solos podem ser desdobrados e as perdas estancadas”.
– O que que você disse? – indagou Júlia.
– Disse o quê?
– O que você disse aí, de dobrado...
Só então Cristina percebeu que aquela frase martelava em sua cabeça e, inadvertidamente, a repetira em voz alta.
– Ah... Falei sem querer, pensei alto. Solo desdobrado.
– Você tá meio agitada, né?
– Estou mesmo. Tem o caso do cristal e agora, isto aqui. Descobri duas coisas muito importantes: uma técnica de desdobramento do solo e outra de captação das argilas que são arrastadas pelas enxurradas, entende? Veja: nós temos meios de manter a terra produzindo e de fazer um lugar desértico, como uma chapada, tornar-se verdejante.
– Chapada produzir?!... Você tá falando sério?
Cristina explicou que em muitos lugares, como ali na fazenda, havia áreas em que a camada de solo argiloso atingia centenas de metros de pro-fundidade . Tanto as argilas como os outros minerais, deixados lá, nunca terão função . Camadas desses solos podem ser transferidas para partes áridas que, assim, se tornariam produtivas. Na sua imaginação, ela via uni-dades altamente produtoras de alimentos, com dois metros de espessura, de solos bem contidos e bem cuidados, onde se tinha um completo controle dos acontecimentos, tal como se faz numa fábrica qualquer . Nelas ocorria não só a reposição de nutrientes, como também o acréscimo de argilas, para au-mentar a produção . Ao mesmo tempo, era grande a expectativa com res-peito ao que ia encontrar nas outras lavras; estava programado um pequeno giro que começaria na Samambaia . { Leia Argilas }
A História de Edu
P ara se chegar na lavra da Samambaia, era necessário subir um morro excepcionalmente íngreme . Mesmo em condições normais de trânsito, só de jipe tracionado se conseguia ir lá, como informou Edu . E a situação da estrada estava péssima : era impossível subir de carro, pois havia muita erosão . Aquele morro era parte da cadeia de montanhas que contornava as áreas de pastagens e agricultura; e já na sua base surgiam afloramentos virgens de dente-de-cão. Enquanto os animais subiam lentamente, nadando em zigue-zague, numa medida instintiva para diminuir o esforço, Edu contou parte de sua vida .
Aquela fazenda tinha sido de seu pai. Ele se apossara do terreno bruto, quando jovem, o desbravara e o tornara produtivo. Descobriu- o por acaso, nas andanças por aquelas serras, caçando, coisa que adorava fazer. Deram-lhe o nome de Fazenda do Paulo. Ali começou a família. Edu foi o primeiro filho. Vieram depois duas filhas e, por fim, mais dois filhos. Com muito trabalho e alguma sorte, ele prosperou, chegando a ter muito gado.
Plantava café, feijão, arroz, milho, mandioca e cana; fazia rapadura, fari-nha, canjiquinha e fubá . A água do córrego do Paulo era captada numa certa altura, corria por um rego e movia um moinho de pedra mais abaixo; nele fazia os farináceos . Além do gado, criava porcos e galinhas .
Explorava ainda as lavras de cristal, junto com parentes e garimpeiros que apareciam. A exploração era no regime de porcentagem . Ele fornecia os alimentos, a feira, como chamavam. O cristal que saía era dividido em dois – a metade para o garimpeiro e a outra metade era dele. Isto se constituiu numa ótima fonte de renda que lhe permitiu aumentar o gado rapidamente. Era a época em que, com um quilo de cristal de primeira, comprava-se uma vaca .
O pai era uma pessoa muito comunicativa, um festeiro, como diziam. Em todas as oportunidades que tinha, principalmente certas datas religiosas, promovia festas, para as quais vinham moradores de terras distantes . As dificuldades de comunicação eram muito maiores, mas ocorria uma espécie de milagre, porque todo mundo ficava sabendo. Como a caça era farta, a carne servida provinha de veados e porcos do mato dali mesmo . Uma festa era motivo de duplo prazer para ele : os dias caçando com os amigos para ter bastante carne assada na brasa no dia e a própria festa .
Não havia estrada para veículos; o comércio era feito em tropas de burro. A chegada do carro de boi à fazenda foi motivo de sensação, que reuniu todo mundo para assistir sua descida pela cadeia de montanhas. Veio de Bocaiúva e levou vários dias para chegar, pois só existiam estradas cavaleiras – as trilhas para os animais – para aqueles lados. Apesar da dificuldade de acesso, o clima na fazenda era de progresso e alegria.
Aos doze anos, Edu começou a fazer parte das viagens de negócios . Primeiro, foi nas idas e vindas de Itacambira. Levavam produtos da fazenda, principalmente café e rapadura, e traziam outros . Aos treze anos acompanhou a viagem de uma boiada para Bocaiúva; trouxeram muitas novidades, por-que lá era um lugar mais adiantado.
Sempre que iam a esses lugares, ficavam arranchados nas cercanias. Havia uma lona, que servia de cobertura, para abrigá-los do sol e do sereno. O alimento era preparado em panelas suspensas em tripés de ferro. Edu adorava aquelas viagens e o convívio que ela trazia com o pai e mais dois ou três trabalhadores ou meeiros que os acompanhavam.
As viagens para Bocaiúva, que eram muito esparsas, tornaram-se freqüentes, mensais até, e sem razão aparente. Nelas começaram a acontecer duas coisas: o pai de Edu passou a chegar no rancho pela manhã; e a quantidade de mercadoria que levavam de volta para a fazenda era cada vez menor.
Desse modo, foram-se, rapidamente, os bois gordos; depois, os bois ma-gros. Quando estes acabaram, passaram a levar bezerros e, por fim, quando já não havia bezerros desmamados, passaram a levar vacas .
A fazenda começou a entrar em decadência . Ninguém ousava perguntar o que estava acontecendo. Nem mesmo a mãe de Edu, que assistia à perda progressiva dos bens . Alguém, certa vez, sem querer, fez um comentário pertinente, e ouviu a explicação : – Tem muito imposto pra pagar . – Entre-tanto, em uma das viagens, Edu escutou alguém comentar que seu pai era viciado em jogo .
– E ninguém foi falar com ele? – indagou Cristina.
– Ninguém. E o respeito? Nem minha mãe tinha coragem de perguntar o que tava acontecendo.
– E você?
– Eu também não. Porque o seguinte é este: eu era muito novo, num tinha maldade, num entendia bem das coisa. Todo mundo ficava naquela tristeza, vendo as coisa acabar...
Durante o retorno de uma dessas viagens a Bocaiúva, o pai estava amuado, não queria falar com ninguém. Chegando em casa, disse para a mulher que a fazenda não era mais dele e que em breve ia chegar o novo dono.
A notícia foi desesperadora porque na fazenda viviam muitos parentes, trabalhando nas lavras de cristal ou na lavoura, como meeiros. Saindo dali, nem tinham para onde ir. Foi desesperador para a mãe de Edu também, porque ela não sabia para onde iam e nem como iriam viver. Edu tinha quinze anos então.
Um dia apareceu lá o Jeremias, acompanhado de dois homens. Disse que tinha ido tomar posse da fazenda. Todos já se encontravam preparados para sair, o que aconteceu no dia seguinte. Cada família tomou um rumo diferente.
O pai de Edu avisou à mulher que iriam para um lugarejo a dois dias de viagem . Montado num animal, ele levava uma filha na garupa . A esposa, em outro animal, levava a outra filha . Num terceiro iam os dois irmãos . A mu-dança seguiu em três burros de carga, tocados por Edu, que viajou a pé . Arranchados nos arredores, o pai começou a procurar uma casa onde pu-desse abrigar a família . Conseguiu um barraco de quatro cômodos, recebido em troca dos animais e do arreamento .
Edu e o pai começaram a trabalhar na enxada, no machado e na foice para terceiros. Embora sentisse muita revolta com a mudança no padrão de vida, o jovem não a expressava.
– Eu achava que se reclamasse ele ia ficar mais triste ainda. E de mais a mais, num ia adiantar nada...
O pai, com problemas no coração, causado pela doença de Chagas, endê-mica na região, morreu pouco tempo depois .
– Acho que foi mais de desgosto – comentou ele.
O sustento da família passou a depender apenas do trabalho de Edu.
– Foi duro... Você nem pode imaginar... Passei apuro demais. Quantas vezes saí pra trabalhar com o estômago vazio... Às vezes minha mãe fazia uma farofa com um quilo de farinha e com isto eu cortava um dia inteiro no machado.
Após a morte do pai, o jovem começou a manifestar revolta. Tornou-se um tanto rebelde. Dizia abertamente que, quando os irmãos estivessem na idade de trabalhar, ia sair pelo mundo.
Em uma de suas viagem a Bocaiúva, abriu-se um pouco o véu que encobria a perda da fazenda . Havia lá um grupo de homens que se encontrava todas as noites para jogar . Quando aparecia um pato, eles se uniam para depená-lo. Seu pai tinha sido um desses patos; tornara-se viciado e perdedor contu-maz. Isso explicava as viagens freqüentes e o retorno com poucas merca-dorias. Na última viagem, quando vendera as últimas vacas e já havia perdi-do o dinheiro delas, recebeu uma provocação : – Então, você vive dizendo que tem uma fazenda de todo o tamanho e aí num tem dinheiro pra apostar ? Aposta a fazenda !.... A minha casa aqui em Bocaiúva contra a sua fazenda ! – Ele reagiu apostando... e perdeu.
Quando os irmãos estavam na idade de trabalhar, Edu de fato saiu pelo mundo . O mundo para ele, eram os gerais . O lugar mais afastado, dentre os que tinha vontade de conhecer, era Grão Mogol, que ficava a pouco mais de cem quilômetros . E ele andou, de lugar em lugar, trabalhando para sobre-viver. Sofreu feito um condenado, segundo suas palavras .
Ficou mais de dez anos zanzando . Namorou muito . Por fim, achou que já era tempo de sossegar . Casou-se e teve dois filhos . Estava de volta para perto da mãe quando, ao parar em Itacambira, teve notícias da fazenda que fora deles.
Jeremias regularizou as terras, obteve o título de propriedade, registrado em cartório . Abriu estradas, comprou máquinas e muito gado . E também ex-plorava as lavras de cristal, sozinho e em parceria . Alguém sugeriu a Edu ir lá e tentar a sorte, o que ele repeliu de imediato .
Com as dificuldades de trabalho em Itacambira e a falta de perspectiva onde estava a mãe e os irmãos, acabou rendendo-se.
– Porque o seguinte é este: sem dinheiro a gente num veve. Se ele falta, a gente tem de parar e pensar como é que vai mexer. Com dinheiro a gente atravessa as frontera. Agora, muito dinheiro é perdição na certa... Foi o causo do meu pai.
A fazenda estava muito diferente; mudara até de nome . Sem expor seu passado, disse que aceitava trabalhar, a meia, nas lavras . Começou a receber a feira, ração básica para uma pessoa, que alimentava mal os quatro, ele, a mulher e os filhos . Comprar alguma coisa ficava na dependência de achar cristal .
Passou a fazer também trabalho avulso para o próprio Jeremias; com esse ganhamezinho melhorava a alimentação. Seus serviços eram apreciados, pois, além de ser trabalhador, Edu mostrava-se merecedor de confiança. Acabou recebendo uma proposta de trabalhar com salário mensal, o que ele aceitou e veio trazer-lhe mais tranqüilidade. Tornou-se uma espécie de braço direito de Jeremias. Nesse meio tempo, sua identidade veio à tona; mas ambos, ele e Jeremias, fizeram de conta que não havia um passado a uni-los de modo tão dramático . Nunca trocaram uma só palavra sobre o assunto.
Os filhos cresceram e ele os mandou para a casa de uma irmã, em Bocaiúva, para freqüentar escola. Quando adolescentes, eles foram para São Paulo trabalhar, seguindo a rota da maioria dos jovens que não viam perspectivas na região.
Vereda e Oásis
Ao chegarem na lavra da Samambaia, Cristina caminhou pela crista do morro, que fora cortada por trator. Estava, como a outra lavra, toda revirada de areia e cascalho; as pedras de quartzo leitoso, também de tamanhos variáveis, foram empurradas para as margens. Era um lugar interessante. Dali podia-se ver, voltadas para o poente e o noroeste, muito além, outras cadeias de montanhas. Caminhando-se em direção oposta, viam-se, voltadas para o norte, nordeste e leste, as extensas pastagens por onde passava a estrada de rodagem que levava a Itacambira. A moça tirou as botas e andou em várias direções. Havia formigamento em toda a área, porém leve, muito leve.
– Engraçado... – disse ela –, eu sinto como se tivesse apenas um sinal leve de cristal e é em toda a crista deste morro, entende? Aqui chegou mesmo a dar cristal, ou será que saiu tudo que tinha?
Edu explicou que ali havia produzido pedras grandes de cristal, porém defeituosas – tinham inclusões de cores e formas variadas, que lembravam nuvens coloridas, barracas, agulhas, cabelos, etc. Naquele tempo só o cristal limpo, sem inclusões, tinha valor.
– Então deve ser isto. Por ter defeitos na estrutura, a eletricidade é fraca, entende?
– Ih !... Esse trem de eletricidade num entendo não . O seguinte é este : que você tem cabedal, tem, mas no assunto de cristal, você vai me descul-par, eu só acredito vendo as pedra sair . Cristal produzir eletricidade ... Ô gente !...
– O que vem a ser mesmo este negócio de cabedal que você tanto fala de mim?
– O seguinte é este : desde o primeiro dia eu vi que você tem um cabe-dal, que você é diferente . Quando a gente anda pelos mato e encontra uma pedra diferente, que nunca viu antes, pensa logo que ela tem um cabedal, tem um valor . O povo na fazenda conversa muito nos trem que você faz.
– Ah, é? E o que dizem?
– O seguinte é este: todo mundo acha que você é diferente; agora a Júlia acha que é por causa do cristal. Ela diz que você recebe energia do cristal e fica protegida por ele. Ela falou que no primeiro dia, lá na maternidade, você entrou no meio das vaca com um cristal. Falou também que tinha dado a pedra pra você e depois te deu a outra grande. Ela diz que as pedra te defende de tudo o que é ruim, até da brabeza das vaca. Ela fala que você carrega a pedra pequena nessa bolsa aí, é verdade?
– É. Eu carrego porque gosto dela, acho-a bonita, entende?
– Sei não. Pra mim seu cabedal é outro, mas a Júlia fala que você recebe a força da Terra e do Sol, guardada no cristal.
– E qual é o meu cabedal?
– Sei não. Mas que você tem, tem.
A jovem propôs pararem com aquele assunto.
– Tá bem. E a gente ainda tem de ir nas lavra do Morro Pelado e do Boi Morto. – Faz uma pausa e reinicia: – Mas tem um negócio: o povo agora, os comprador de cristal, anda procurando essas pedra com defeito.
– É verdade . Fiquei sabendo em Belo Horizonte . Eu mesma vi muitas. Compram pra enfeites, pra colecionar, pra fazer peças artísticas, essas coisas, entende? E o cristal limpo, eles compram pra fazer bolas, pirâmides, coisas assim . Muita gente acredita mesmo que o cristal tem energia que passa para o corpo e dá outros poderes às pessoas, entende?
– Qual poder?
– Vamos andando que eu te conto no caminho.
Edu tomou a dianteira e pegou uma trilha na direção sudoeste.
– Eu teria muitos exemplos . Vou dar apenas um . Contam que alguns chi-neses ricos apreciam a bola de cristal limpo . Falam que ela traz dinheiro pro seu dono, entende? A bola tem de ficar no chão, na quina de um cômodo da casa . Se ele consegue mais de uma, compra e coloca do mesmo jeito, em outras quinas, entende?
– Mas isso é uma mentirinha, num é?
– Mentirinha?...
– É, mentirinha dos vendedor de bola . Porque o seguinte é este : todo vendedor, grande ou pequeno, tem de falar uma mentira pra vender; nem que seja uma mentirinha. Num é errado não . Errado é comprar, marcar o dia de pagar e num pagar . Aí, vai ver que eles conta o causo do dinheiro e os chinês acredita.
– Não tem nada de mentira dos vendedores não, Edu . Os chineses acre-ditam na força do cristal . E falam também que quanto maior for a bola, mais dinheiro vai pra pessoa . Então os chineses ricos pagam fortunas por uma bola grande de cristal natural limpo, entende?
– Ah!... agora eu tô entendendo porque que eles procura tanto o cristal grosso... É pra fazer essas bola... Conta mais um causo, conta... – suplicou Edu. – Eu gosto tanto dessas história...
– Só mais um, porque eu preciso prestar atenção nos lugares, preciso ficar concentrada pra ver e sentir as coisas no caminho. Tem gente que usa o cristal pra ficar mais lúcida ao decidir alguma coisa, entende? Pra isto deitam-se, colocam um pequeno cristal na testa, entre os dois olhos, relaxam e começam a pensar no assunto que precisa ser decidido. Falam que é o terceiro olho, a terceira visão, entende?
– Isso também é a eletricidade?
– Não, isto nada tem a ver com efeito piezelétrico. Penso que fazem uma ligação ao fato de a testa ficar perpendicular ao eixo ótico do cristal, entende?
– Eixo o quê?
– Eixo ótico, Edu. Não dá pra explicar. Esta é uma outra característica do cristal de quartzo. Da mesma maneira que a atividade elétrica que te falei está ligada a umas partes do cristal, que são chamadas de eixos elétricos, existe uma direção que é chamada eixo ótico, entende?
– Esse trem é muito complicado.
– É sim, Edu. É assunto de especialistas em eletrônica, física, ótica e outras áreas.
– Conta mais um causo... – implorou Edu. – Só mais um!
– É o último hem ? Algumas pessoas acham que o cristal energiza a pes-soa ou o ambiente, entende? Outros acham que ele capta energias negativas e protege a pessoa . Outros falam que protege do mau-olhado . Outras acham que ajuda a pessoa a dormir, quando perde o sono, de noite . Outros acham que cura doenças . E por aí vai... entende?
– Eu só entendo de tirar o cristal.
Os dois prosseguiram em silêncio . Um pouco à frente, Cristina tocou no caso do Juca; disse que estava preocupada, chateada e pensava se podia fazer alguma coisa . E prosseguiu: – Fico pensando se devia tratá-lo diferente, dar menos atenção, por exemplo; aí, talvez, ele perdia a esperança e acaba-va com isso ... entende? Você vê : o Jeremias o mandou lá pro Buriti, mas ele está sempre arrumando desculpas pra aparecer na sede . Quer me ver, falar comigo, nem que seja só pra dar bom-dia ou boa-tarde .
– Sei não ... Acho que ia ser pior . Porque o seguinte é este : a pessoa pa-xonada vê as coisa diferente . Um dia desses eu assuntei com ele e sabe o que que ele disse? Que você gosta dele. Assuntei mais e ele disse que sabia disso por causa da sua voz, que a sua voz fala isso . Agora você vê se pode uma coisa dessa...
– É mesmo Edu?! Por causa da minha voz?...
– É. Agora, se você muda, aí é que ele vai achar mais ainda que você gosta dele; vai pensar que você só tá disfarçando... Tá queto num tá? – Cristina confirmou. – Se tá queto, deixa queto, porque o seguinte é este: se mexer pode complicar.
– É... acho que você tem razão. O melhor é continuar tratando ele como trato todo mundo. Mas é tão desagradável isso...
– Fica chateada não. O resto, todo mundo, gosta de você de um jeito saudio. Tem essa coisa do Juca, mas tem as coisa boa. Pensa nas coisa boa.
Na sua simplicidade, Edu distinguia o amor sadio, ainda que no plano da amizade, do amor insano que Juca alimentava pela jovem . E também cha-mava sua atenção para a tendência que temos de ficar remoendo o abor-recimento causado por algum fato desagradável e apontava uma solução : olhar à sua volta e ver que havia muitas coisas que deviam ser levadas em conta e que, certamente, dariam satisfações . Mas Cristina rebateu:
– É, mas não é fácil assim não. Pensa que é só dizer “Não vou mais me incomodar com isto” e pronto? Se fosse fácil assim, eu já tinha resolvido.
– É, mas o seguinte é este: se você não fazer força, essa tristeza num vai embora não.
– E tem a situação da Vilma... é tão desagradável....
– Aí eu concordo. Esse trem do Juca é que nem uma doença. Dessas que pega e num larga. Só que eu achava que só dava em muié. É a primeira vez que vejo em home.
– Como assim?
– Porque o seguinte é este: a muié é mais fraca.
– Isso é bobagem sua Edu. Esse sentimento... pode acontecer com homem ou mulher. Não tem diferença. E não é sinal de fraqueza não, entende? Só dá em mulher... Você é engraçado Edu: fala umas coisas tão interessantes numa hora e logo depois fala uma bobagem.
Na lavra do Morro Pelado, a sudoeste, estiveram rapidamente. Tratava-se de um morrote com várias escavações antigas. Era difícil andar ali devido à forte inclinação do terreno e à presença de muitas pedras. Cristina sentiu o formigamento numa parte dela.
Entretanto, quando chegaram na do Boi Morto, ao sul, a moça ficou deslumbrada. Não só pela intensa atividade dos cristais, mas também pela beleza do lugar . Era uma chapada grande, no extremo da cadeia de mon-tanhas. Na lateral leste havia uma enorme seqüência de afloramentos de dentes-de-cão, todos muito brancos, tão brancos que lembravam o leite . Esses afloramentos contornavam os limites da montanha até o sudeste . Ao sul, o terreno terminava abruptamente e, cerca de cem metros abaixo, pás-sava o córrego da Dona, na direção leste-oeste. Distante da área de sensi-bilidade, a uns duzentos metros, quase no centro da chapada, havia uma grande depressão no terreno e algumas árvores – foram até lá, a pedido de Cristina.
Da beira da depressão, que parecia uma enorme fenda na montanha no sentido norte-sul, via-se um bosque que acompanhava o declive agudo do terreno; o mato era bem fechado e as árvores, de porte. Os dois desceram a pé, contornando as árvores.
– É uma pequena floresta – disse a moça, com entusiasmo. – Deve ter uns quarenta mil metros quadrados.
Embaixo encontraram um brejo, do qual surgia um preguiçoso regato. A jovem ficou vários minutos contemplando a água sair do meio da vegetação. De volta à beira da depressão ela comentou:
– Edu, veja o que é a natureza: árvores e água aqui... Parece que ela está nos dizendo que, por mais árida que seja a alma, inesperadamente surge o verde da esperança. Junto com a água surge a vida, entende? Nem que seja num cantinho apenas.
– Eu num entendo essas coisa não. A gente aqui chama isso de vereda. É uma nascente com mato no pé de dois morro.
– Não importa o nome, Edu. Olha quantas montanhas nós podemos ver daqui – a moça apontava em várias direções. – Estão todas abaixo ou, no máximo, na mesma altura desta. E aqui, esta chapada de capim seco. No meio dela, esta maravilha a nos lembrar a celebração da vida: um oásis!...
‘ Um lugar perfeito para acampar ’ – pensou.
– Ali adiante dá pra ver umas parte da fazenda – comentou Edu, apon-tando para o leste .
Caminharam para o lugar indicado, uma borda da montanha, de onde a moça viu mais um cenário magnífico. Abaixo, a outra área de pastagens e plantações da fazenda. Bem ao fundo, distando cerca de cinco quilômetros, outra cadeia de montanhas. Nesse espaço, entre as duas cadeias, viam-se, para além das pastagens e plantações, muitos morros e depressões, suaves e agudos. Edu apontou alguns dos lugares que ela ouvira falar, com os nomes que os identificavam, e assim a moça pôde ter uma compreensão mais global da fazenda e a posição de várias lavras.
– Edu, aqui não tem lavras de quartzo – disse ela, com arrebatamento –, isso aqui é a terra do cristal. Essas lavras estão todas interligadas e só Deus sabe o tanto que elas vão chão adentro, entende?
No retorno, Cristina parou para examinar melhor todo o lugar . A chapada devia ter uns quatrocentos mil metros quadrados . No contorno de um dos extremos, cristal . No centro, o oásis . Na borda norte do oásis, emergiam gran-des blocos de arenito . A estrada de rodagem terminara uns oitocentos metros antes . Para chegar ali, só mesmo a cavalo ou caminhando. Um lugar mágico . ‘ Perfeito também para retiro e meditação .’
Durante a volta à sede, ela foi imaginando a conversa que teria com Jeremias à noite . Era chegado o momento de apresentar seus estudos e de serem tomadas grandes decisões . Estava determinada a submeter tudo a provas definitivas: desdobrar solos, captar argilas, fazer planta nascer e crescer onde só havia areia e encontrar o cristal . Acima de tudo, tinha urgên-cia de provas definitivas para si mesma . Evidências de que não lidava com fantasias, ela tinha de sobra . Mas, fatos ... sua formação científica clamava por fatos, provas . Apesar de sua preocupação com provas, ela muitas vezes nem se dava conta de que fenômenos supranormais permeavam suas ações e dirigiam seus passos .
Cristina Deslancha
À noite a jovem começou a expor, para toda a família, de forma resu-mida, os resultados que apresentara antes . Lembrou-lhes que as terras de cultura apresentavam deficiências de minerais, níveis de argilas baixos em alguns lugares e provavelmente caindo em outros, que havia terras de pastagens onde, além das deficiências minerais, a acidez era alta . E finalmente, que a situação das chapadas era desoladora, devido ao excesso de hidrogênio, alumínio, ferro e areia, e quase ausência de argilas e nutrientes .
Em seguida ela disse que examinara terras de cultura até a profundidade de quatro metros e que, em alguns lugares, os resultados eram animadores . Em duas mangas, do Moinho e do Capim, havia encostas íngremes que atingiam mais de vinte metros de altura, pregadas nas rochas das serras, com quantidades excepcionais de silicatos ( compostos do silício ) precursores de argilas, sem qualquer utilização . Ademais, a parte consolidada era de argilas com a mais alta capacidade funcional e com elevadas quantidades de nutrientes minerais . Estava tudo lá, praticamente do mesmo modo como foram produ-zidas, milhões de anos antes .
O plano era tirar argilas e os outros minerais desses lugares e transportá-los para áreas improdutivas, como as chapadas. Ao lado disso, desenvolver uma técnica para evitar a perda contínua dos mesmos através da enxurrada. Ao falar especificamente sobre as argilas, a jovem chamou a atenção para a semelhança entre o tamanho médio delas e o tamanho médio das células e para o fato de que elas são a parte mais importante do solo.
– Ah!... Então é por isso que você fala em desdrobar... Tira de um lugar, pega e aí, leva pra outro lugar? – entrou Gilton.
– É. Podemos aumentar em muito a área produtiva, tirando os minerais de lá, sem a areia, e colocando numa chapada, por exemplo, entende? Nem que seja só na camada de cima da chapada.
– E quanto custa isso ? – começou Jeremias com expressão de incre-dulidade. – Num deixar essas coisa ir embora e ainda tirar de um lugar e aí levar pra outro ? Quanto custa fazer isso em muitos hectar de terra ?
– É, isto tem um custo . Nem sei quanto . Mas o que proponho é fazermos isso numa área pequena, entende? em caráter experimental.
– E se der certo, a gente pega e vende terra das serra – falou Gilton, em tom irônico. – Quem sabe dá até pra exportar?...
Depois disso, caiu um enorme silêncio na sala . E então, passou pela jo-vem um pensamento fulgurante : Sintetizar argilas . Praticamente sem per-ceber, no impulso, ela falou:
– E ainda vamos fazer o experimento supremo.
– O que que é isso ? – indagou Júlia, enquanto todos se olhavam sem em-tender também .
– Supremo, máximo. Vamos sintetizar um pouco de argila.
– Ah... sintetizar ... – disse Gilton com expressão de desaponto, sem entender o alcance da idéia .
– Mas quanto ? Quanto ? – insistiu Jeremias, que também não deu impor-tância e voltava ao assunto .
– Nós vamos precisar de suas máquinas, e ainda de uma báscula e uma pipa para serem adaptadas ao seu caminhão; vamos precisar também de uma carregadeira, tijolos, cimento e outras coisinhas, entende?
– Com que dinheiro? – voltou Jeremias a indagar, batendo nos bolsos da calça, como a indicar que não tinha.
– Vamos tirar uns cristais, vender e comprar tudo isso, entende?
O riso da descrença estampou-se no rosto de todos, exceto no de Júlia que, inclusive, reagiu:
– A nossa família tá parecendo de gente boba . Num vê que ela tá estu-dando e trabalhando muito ? – Sua voz exprimia irritação . – Eu tô perto e tô vendo. Ela faz uns trem diferente com a terra, nós podemo num entender, mas quem tem certeza que num vai dar certo ?
– Cristina, olha aqui: – começou Gilton, sem dar importância ao que a irmã disse – você fala umas coisa que num dá pra gente entender direito. Tá certo: você é estudada, a gente num tem como discutir o que a gente num entende. Mas de garimpo a gente entende. Dizer que vai tirar cristal pra fazer essas coisa?... e com esta facilidade?... Até parece que é igual ir ali, pegar, e abrir a torneira de água.
– E depois que comecei a perder dinheiro com garimpo, resolvi que num ia mexer mais com isso não – reforçou Jeremias.
– E se saísse esse tanto de cristal, era melhor comprar outras terra boa, que era só plantar e pronto, de acordo? – completou Gilberto.
– É verdade – respondeu ela. – E é assim que quase todo mundo pensa e age. Só se importam com a facilidade e o lucro imediato. Mas nós só vamos fazer uma experiência, entende? Se der certo, continua, se não der, pára.
– Gente, vamo ver como é que é, né? Deixa ela explicar... – voltou Júlia.
– Filha, nós já tentamo o cristal aqui e você sabe no que deu: só prejuízo – retrucou Jeremias.
– Vamos fazer um trato – disse Cristina, voltada para Jeremias. – Eu tenho umas economias . Você arranja três homens pra cavar, eu pago o ser-viço deles, entende? Você entra com o seu equipamento de perfuração, que está parado aí e eu pago o combustível e outras coisas que precisar . Vão cavar no lugar que eu indicar . Se sair cristal você vende, me dá apenas o que eu tiver gasto e mais um tanto pra eu comprar umas coisas pra com-tinuar o meu trabalho aqui, entende? Com o restante você compra as má-quinas e complementos para o transplante das argilas . E o que sobrar você faz o que quiser. Depois a gente tira mais cristal, pra você fazer muitas melhorias na fazenda, como colocar luz, aproveitar a água pra fazer mais irrigação, arrumar a estrada, pôr calcário, desdobrar mais solos e outras coisas . Você não vai correr risco nenhum de perder dinheiro, entende?
– Tá fechado! – respondeu Jeremias, sem muita convicção. – Eu tenho de ir em Itacambira amanhã comprar umas coisa; aí, se você quiser, aproveito e arranjo os home.
– Vou aproveitar e vou com você. Preciso ligar pra casa e pra umas pessoas, entende?
– Eu também vou – entrou Júlia, que não perdia a oportunidade de dar um passeio.
– Cristina – disse Gilberto –, pensa bem: você tá achando que a gente vai encontrar um monte de cristal, um bamburro...
– É isso mesmo que vai acontecer: um bamburro!
Chegara a hora da primeira prova. No íntimo, Cristina estava convicta dos resultados. Imaginava, até com detalhes, os acontecimentos que se sucederiam.
No outro dia, cedinho, os trabalhadores já mostravam intensa excitação. A notícia havia corrido: – A moça garantiu um bamburro.
Jeremias, Filó, Júlia e Cristina foram de jipe a Itacambira. Ao se aproxi-marem da porteira, na divisa da fazenda, o coração da jovem disparou e seu corpo foi tomado daquelas sensações confusas. Passados alguns segundos, um minuto, dois talvez, sentiu-se completamente refeita . Era intrigante sentir aquilo todas as vezes que entrava ou saía dos limites da propriedade . Em Itacambira ela ligou para Belo Horizonte, falou com os pais, com Clara, com outros amigos e com o namorado João. Este disse-lhe que iria visitá-la. A moça o alertou para as dificuldades da estrada . Recomendou fazer a viagem num jipe com tração nas quatro rodas . Jeremias acertou com três homens, experientes em garimpo de cristal, o trabalho na lavra; mas eles só pode-riam ir uma semana depois .
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